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Conclusões diferentes a respeito de trabalho como identidade


Fiz um post recentemente sobre mentir para mim mesmo, que fala um pouco sobre mentir para mim mesmo para eu poder tornar o trabalho suportável e eu poder me sentir melhor comigo mesmo. Continuo fazendo isso. E hoje me surpreendi com um vídeo que apareceu no YouTube. Era do canal Filosofia Infinita, uma reflexão do Hugo, em que ele aborda a desconstrução da ideia de que o trabalho deve ser a principal identidade e propósito de vida da pessoa. Isso vem muito de uma mistura com a religião. Ele cita Max Weber, em A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, o calvinismo para explicar a transformação do trabalho em virtude e propósito divino, mas a raiz disso já vem antes, com Martinho Lutero e a Reforma Protestante: foi Lutero quem introduziu o conceito de Beruf, vocação, defendendo que o trabalho secular era a maior obrigação moral do indivíduo e a melhor forma de agradar a deus. Depois o calvinismo radicalizou isso, associando sucesso no trabalho e disciplina rígida a sinais de salvação divina, e foi aí que o esforço profissional virou motivo de orgulho, virtude, base do espírito do capitalismo moderno.

Encaixou muito. Parece que ele leu minha mente e conseguiu trazer palavras, trazer fontes, para tudo aquilo que eu tava pensando e que eu queria dizer, e que eu não tinha recurso para isso. Porém, acho que a gente tomou caminhos diferentes na conclusão. Ele está em busca de mais conhecimento, tem o clube do livro dele, que achei muito interessante, inclusive vou deixar aqui para quem quiser se inscrever: o clube do livro do Filosofia Infinita. E eu estou em busca de um mecanismo de autodefesa baseado em ignorância.

O trabalho como armadilha estrutural

No vídeo, o Hugo mostra que isso é uma coisa muito estrutural do capitalismo, e eu concordo sem sombra de dúvidas com essa origem. É exatamente isso que as pessoas que detêm o capital querem: que a gente tome o trabalho como identidade, que acreditemos que temos um propósito nele, que o trabalho é a nossa identidade e que vamos encontrar a felicidade trabalhando. Mas ele diz uma coisa que me lembrou uma frase que levo como verdade: “nenhum trabalho é bom, bom é não ter que trabalhar” (SEU MADRUGA, s.d.).

O autor também dá um exemplo de um pianista que era excelente e amava tocar. Certo dia, alguém fala para ele “Olha, você devia ganhar dinheiro com piano”, ele começa a dar aulas, concertos, etc. e deixa fatalmente de gostar de piano.

Já aconteceu isso comigo. Eu gostava muito de fotografia. Comprei uma câmera, comprei algumas lentes, fui lá tentar ser fotógrafo, porque as pessoas disseram que eu era bom com fotografia. E eu passei a odiar fotografia. Vendi minha câmera, vendi tudo, e perdi um hobby que eu gostava e passava horas com ele, horas não produtivas, que inclusive o Hugo recomenda termos e, infelizmente, deixei de ter.

Onde os pensamentos divergem

A conclusão que chegamos é diferente, e penso que ele está mais certo do que eu: o Hugo diz que a devemos lutar no coletivo para conseguir condições melhores para sairmos dessa armadilha do capitalismo juntos. Então temos que estudar mais, procurar mais e melhores informações, buscar mais conhecimento. Já a minha visão é uma autodefesa individual, para me proteger, talvez esse caminho não seja o certo, mas sinto ser o que preciso.

E tem uma perspectiva que pode estar bem errada do meu lado, que quanto mais conhecimento tenho, menos feliz estou. Mais injustiças vejo no mundo, mais problemas percebo nas falas e nos atos das pessoas. E, ao mesmo tempo, vejo algumas pessoas do meu círculo social que não têm tanto conhecimento, ou que buscam conhecimento em outras áreas que não são numa área mais filosófica e questionadora, e estão bem mais felizes do que eu.

Tenho alguns amigos que trabalham como pintores, soldadores, pedreiros, auxiliares de pedreiro, na restauração ou em outras áreas mais manuais. E eles estão muito satisfeitos com o trabalho. Trabalham apenas no horário que são contratados, recebem o salário deles, e o resto do dia curtem a própria vida. Se falar com eles, estão satisfeitos, felizes e indo atrás das coisinhas deles.

E eu aqui, com um trabalho sentado, calmo, com horário flexível, me questionando se o serviço é bom, se me completa ou se me deixa realizado. Sendo que tenho a liberdade de horário que essas pessoas não têm, um salário às vezes consideravelmente mais alto, e mesmo assim tentando encontrar justificação ou sentido, sendo que poderia simplesmente aceitar que é apenas um ofício e curtir a minha vida.

Momentos de vida diferentes

O que ele pede é que lutamos para que todos tenham o que tenho, uma profissão tranquila, e principalmente que seja só uma parte do nosso dia, nem uma parte da nossa personalidade, só uma parte do dia, de preferência, apenas um dia na semana. E eu estou mais com outro tipo de pensamento: vou ficar na minha, vou ficar quieto, lutar pelo meu bem-estar.

É só uma conclusão que tirei do vídeo. Acho muito nobre a visão dele, e o que está tentando fazer. A minha visão hoje é um pouco diferente, eu estou lutando um pouco mais por mim. Talvez quando eu tiver com a saúde estabilizada, eu consiga fazer um pouco do que ele está fazendo, lutar em busca de uma melhora para todos.


Referências