skip to content

Nem oito, nem oitenta. Quarenta e quatro.


Continuando um pouco na pegada do último post, sobre a Sony anunciar que os jogos do PlayStation 5 agora serão só digitais, lembrei de outros pensamentos que venho tendo sobre esse movimento que parece acontecer cada vez mais, o de querermos ser mais analógicos, ter mais controle sobre o que expomos, mais controle sobre o que fazemos da nossa vida no geral, mais tempo pra nossa vida. Pensei também nessas câmeras retro/vintage atuais. Tem as descartáveis, que voltaram na moda, e as pessoas agora estão revelando foto de novo. Mas tem as que fingem que são descartáveis, tem a Kodak Charmera, tem a Camp Snap, entre outras. Me parece que as pessoas estão em busca daquele sentimento de que a foto está capturando o momento, não a realidade em si. Hoje em dia as câmeras de celular estão cada vez mais avançadas, cada vez mais incríveis, tiram foto com HDR, as sombras ficam claras, os claros ficam escuros, tudo fica em foco, tudo muito ótimo, mas as fotos não têm sentimento nenhum, elas não estão guardando uma lembrança, estão guardando um registro fotográfico. E as pessoas acabam tirando dez, quinze fotos, depois ficam olhando a foto pra ver qual foi a melhor, e esquecem de aproveitar o momento.

Não só isso. Em questão de aproveitar o momento, as pessoas nas cidades grandes vivem pro trabalho. Já falei sobre isso, sobre trabalho como identidade, aqui no site. Mas cada vez mais vejo pessoas desses centros, principalmente millennials, dos anos 90, falando que querem ir pro interior morar num sítio, ter uma fazenda. Eu mesmo já quis muito ter isso.

O que é morar num sítio de verdade

Só que me parece que as pessoas não percebem o que isso significa, o que é morar num sítio. Eu também não sei exatamente o que é, porque nunca morei em um, mas já visitei, tenho parentes próximos que têm sítio, fazenda ou vivem numa chácara, e mesmo nesse pouco tempo de convívio, dá para perceber como a vida é diferente. Primeiro, imagina você a quarenta minutos de um hospital, ou cinquenta minutos de um centro comercial. Se tem uma emergência, é você e deus. Ou se acaba o gás no meio de uma refeição, como você vai fazer? Claro que muita gente tem fogão a lenha, mas dá para entender meu ponto.

Como é criar uma galinha? Ter, de certa forma, apego a ela e depois matar pra poder comer. Como é criar gado ou porcos, os problemas do mato, insetos, escorpiões, etc. Parece que todo mundo está idealizando, eu inclusive, essa vida mais simples, mas sem ver as dificuldades, o outro lado da moeda.

Nem oito, nem oitenta

Acho que a vida num centro urbano, como São Paulo ou Paris, também não é lá essas coisas. Vejo nas séries de Nova York todo mundo correndo, como em O Diabo Veste Prada 2, todo mundo com café na mão, louco pra fazer o trabalho, chegando em casa, dormindo, voltando para trabalhar. Isso também não é vida, com certeza. Mas não acho que o outro extremo seja a solução.

Vejo, por exemplo, na cidade que eu moro, uma cidade pequena. Estou a poucos minutos de centros comerciais, hospitais, padarias, farmácias, etc. Tem uma cidade maior por perto. E sinto que tenho tudo, consigo fazer a maior parte das minhas coisas a pé, mas se preciso de um carro, tenho um carro à disposição.

Acho que não estou ali no meio termo exato, moro num apartamento, poderia ser uma casa com um jardim. Mas acredito que a solução não é nem oito, nem oitenta, é o quarenta e quatro. É a metade do caminho, um pouco pra lá, um pouco pra cá. E acho que podemos ter os benefícios de uma vida calma com os benefícios de uma vida urbana, com coisas pra fazer, com pessoas pra se relacionar, sem estar cem por cento isolado. Claro que, em cada uma das opções, teremos que abrir mão de alguma coisa, isso é normal, mas quando estamos no quarenta e quatro abrimos mão de menos coisas.

O trabalho que a IA não vai fazer

O êxodo rural não aconteceu à toa, claro que foi muito da demanda da revolução industrial, dos empregos, mas o êxodo urbano não me parece ser a solução. As pessoas saíram do campo por um motivo. Agora, com a IA, temos a discussão se vai sobrar trabalho para os humanos. Acho que a IA pode fazer muita coisa, mas os trabalhos para pessoas vão continuar existindo.

Uma IA não vai conseguir, não por enquanto, construir uma casa, arrumar a canalização, atender um paciente no hospital ou dar banho no seu pet. O trabalho vai continuar existindo, provavelmente vão nascer novos trabalhos, e vamos continuar nas cidades. Pode ser que as pequenas cidades cresçam (e acho que é o certo) porque as pessoas vão poder ir a outros lugares, vão ter que aprender novas habilidades que essas cidades pequenas carecem, seja mão de obra de atendimento, de construção ou que nem sabemos ainda.

Se eu puder dar uma dica para ti: não more em Nova York, mas também não more no fim do mundo. More no meio termo, numa cidade que tenha a calmaria ou a agitação que você procura, mas que não seja só isso, que tenha outras personalidades, que você possa fazer o que gosta. No meu caso é praia. No seu caso pode ser rio, futebol, tiro ao alvo, artesanato, não sei. Você não precisa de um mercado aberto às 3h da manhã porque precisa fazer um bolo na larica, mas também não more a 50 minutos do hospital mais próximo.