Estava a acompanhar uma apresentação sobre melhorias e inovações em serviços do Estado. Várias empresas a dar palestras sobre Inteligência Artificial, preocupações com processos mais simples, interoperabilidade, experiência dos cidadãos e muito mais. Todas pessoas grisalhas, de ternos e com postura impecável, estavam a falar de coisas muito importantes.
Mas será que eram tão importantes assim? À primeira vista, a melhoria de um serviço público não é só importante, é necessária. Assim como avanços da tecnologia, mas eu dei um passo atrás e me perguntei: não estamos apenas resolvendo problemas que nós mesmos criamos?
Problemas modernos exigem soluções modernas?
Neste evento que assisti falavam de diversas inovações para simplificar e transformar o Estado para ser mais pró-ativo, é lindo de ver. Porém o problema talvez não seja mais atrás? Por que o Estado precisa saber tantas informações a respeito das pessoas? Para que preciso de uma IA para destrinchar o meu pedido de subsídio? E o principal, por que precisa-se de subsídio?
Na minha visão, o problema está antes, é estrutural. O sistema socio-econômico no qual vivemos propícia a fome, a desigualdade, a dificuldade para muitos em prol de poucos e isso aumenta cada vez mais o abismo entre os que estão no topo e os que estão embaixo. E esses que comandam mascaram o problema ou apontam os holofotes para longe e nos apresentam soluções que remediam mas não resolvem. Pois precisam que o poder e o dinheiro continuem centralizados em sua posse.
Todos nós fingimos que trabalhamos
Com todos os avanços tecnológicos que estamos tendo nos últimos tempos, percebo que estamos inventando sempre novos problemas para que resolvamos. E ficamos em várias reuniões discutindo funcionalidades, melhorias e inovações para resolver estes problemas.
Dando um exemplo mais aplicado ao meu dia-a-dia: eu trabalho com tecnologia, e todas as semanas pessoas vêm até mim para discutir novas funcionalidades, que irão integrar ainda mais os sistemas de x, y ou z. Eu estou naquela reunião, fingindo que me importo e apenas escutando com 10% da minha atenção. A pessoa que está a apresentar também finge que se importa pois mandaram ela fazer, quem mandou fazer também finge que o sistema importa, seja por dinheiro ou por poder político. As pessoas que usam o sistema, só o usam por que alguém os obriga a usar, seja por uma regra ou uma lei.
Um monte de invenções que fizemos durante anos para ocupar o nosso tempo e nos sentirmos, de certa forma, importantes. Mas que não servem para nada, ou servem muito pouco.
Exemplo do excel
O contador utiliza o excel para fazer a contabilidade de uma empresa X, para que ela não tenha problemas fiscais e possa fornecer o seu software para seus clientes e lucrar com isto. O software, resolve um problema inventado. A lei, inventou que a empresa precisa pagar o imposto, pelo bem da sociedade ou do país. Mas, o país é uma coisa inventada, os limites geográficos foram tirados do cu.
O padeiro não finge que trabalha
Ele realmente faz um trabalho que não é inventado, todos nós sentimos fome e este ser abençoado faz uma mistura de água, sal, trigo e não sei mais o quê, que satisfaz a minha necessidade básica e se tiver bem quentinho ainda me deixa feliz.
O pedreiro constrói as nossas casas, para termos teto e morar com mínimas condições, assim como o encanador e o eletricista (o pintor eu não tenho certeza). Sem as moradias como são feitas agora, morreríamos de frio ou de alguma doença.
Agora, eu? Eu faço botões que as pessoas clicam para fazer um pedido, de sei-lá-o-quê por que não em importo. Mas por algum motivo eu recebo mais dinheiro do que estas profissões supracitadas. Não faz sentido algum.
Esse texto vai continuar, pois agora não sei como terminá-lo.