Tenho usado IA no meu dia-a-dia, já está completamente instalada em meu cotidiano. Uso para tarefas corriqueiras como agendar eventos, lembrar coisas que escrevi, transcrever reuniões e obter resumos, e também para projetos pessoais grandes.
Um dos meus sideprojects é uma ferramenta que há anos eu queria fazer, porém não sabia como desenvolver. A IA me possibilitou que eu tirasse uma ideia do papel e colocar em prática, não foi apenas uma ferramenta, foi o início, meio e fim. Porém, se me perguntares como a ferramenta funciona, sei responder superficialmente o princípio e a lógica, mas não conheço a estrutura de ficheiros, o que tem em cada função ou linha, nem como elas interagem entre si.
Os dois lados da mesma moeda
Não saber como está feito me traz dois questionamentos, qual o lado bom da IA? E qual o lado ruim?
Na minha concepção, o lado bom é que nos dá a possibilidade de fazermos coisas que queremos e/ou precisamos e não sabemos como fazer. Por outro lado, pode nos tornar reféns da comodidade e nos tornar mais “burros”. Eu poderia muito bem ter buscado conhecimento que existe em abundância na internet, aprendido a desenvolver e então feito todo o código a partir do zero, ou pelo menos com o auxílio de uma IA que sugere completar o que escrevo.
Provavelmente teria levado muito mais tempo, teria tido menos noites dormidas e mais descanso, porém saberia como funciona de cabo a rabo todo o funcionamento do software e principalmente sentiria que foi feito por mim. Além disso, teria menos erros, que inclusive não sei que existem.
Uma chave para novos caminhos
Outro projeto que tenho, é escrever, como faço neste exato momento. Entretanto não conseguia parar para escrever, seja no computador quanto no papel, seja por interrupções das incessantes notificações ou outras atividades mais palatáveis que existem na internet ou até por dor nas mãos. Cheguei à conclusão que precisava de um ambiente analógico mas fácil de interagir. A primeira coisa que veio à minha cabeça foi comprar uma máquina de escrever. Mas para isso precisaria desembolsar alguns ou vários euros, poderia parar de funcionar por ser uma peça velha, emperrar teclas, rasgar papel, e outras coisas que máquinas de escrever fazem quando estão cansadas. Não me pareceu a melhor escolha.
Então, decidi procurar aplicações de escrita que pudessem trazer este “sentimento” mais adequado que pudesse me liberar para a escrita, encontrei uma ou outra solução, mas nada do jeito que eu queria. Foi neste momento que comecei a buscar softwares de código aberto, vulgo open-source, que eu pudesse usar de base e completar com as funcionalidades que precisava com o auxílio da inteligência artificial. Com alguns prompts e mais outros ajustes a IA desenvolveu. Não tenho a mínima ideia de como ela fez, ou como funciona, mas resolveu o problema, estou a escrever neste momento com o Typewriter.
Um auxílio para a privacidade
Sempre fui meio bitolado com redes sociais por invadirem a nossa privacidade de formas que nem imaginamos, roubos de dados, etc… Nunca gostei da abordagem de um produto ser grátis porque na verdade o produto somos nós, os nossos dados. Então comecei a buscar ferramentas que pudessem me auxiliar com a minha privacidade.
Consegui usar o Claude para transformar um antigo laptop em um servidor e nele instalamos o Pi-Hole para filtrar o que entra e sai de informações em toda a rede Wi-Fi da minha casa, fazendo com que muitas das propagandas que seriam entregues para mim e a minha família fossem filtradas, assim como os dados que tentam extrair de nós não saiam do meu controle, sem as LLMs eu jamais teria conseguido fazer.
Fugindo de assinaturas
Além disso, não gosto do modelo de SaaS, assinaturas como serviço, pois fico com um pagamento recorrente, uma responsabilidade de pagar todos os meses e também fico preso a uma empresa que obtém e pode controlar o que posso ou não fazer. Então de novo, com a ajuda do Claude, busquei uma alternativa ao 1Password (que acho incrível, completo e super polido), que me retirava todos os meses 8€ da conta.
Encontrei o Bitwarden, uma opção open-source, que permite auto-hospedar um cofre dentro do meu servidor caseiro e usar a extensão, aplicação para desktop e para iOS sem custo algum. O ecossistema é muito bom, mas não tão bom quanto o 1Password, falta um esmero, uma funcionalidade ou outra que uma empresa de milhões de dólares consegue desenvolver, mas uma comunidade de desenvolvedores entusiastas leva mais tempo.
O Bitwarden é de código aberto, então possibilita que as pessoas desenvolvam estas pequenas melhorias e polimentos. Peguei na “mão” do Claude e juntos fizemos uma destas funcionalidades que faltavam, o quick access. Com isto feito em um ou dois dias, transformei o Bitwarden no meu gerenciador de senhas padrão e hoje realizei o cancelamento da minha assinatura do 1Password. Óbvio que não ficou tão bem feito quanto o deles, um desenvolvimento de uma IA com vibecoder amador jamais pode ser comparado com uma empresa avaliada em 6.8 bilhões de dólares, mas resolveu o meu problema e já é suficiente para mim.
Não é uma bala de prata
Ainda não consegui me livrar de todas as assinaturas, atualmente pago o iCloud, pois substituir armazenamento em nuvem é custoso e jamais terá a integração nativa que a Apple proporciona. E também, obviamente, a assinatura de 20€ que a Anthropic recebe fielmente de mim todos os meses há quase um ano.
Não sei mais quando sou eu e quando é a IA
Trabalho remotamente, e muito da comunicação é escrita, sejam e-mails ou mensagens. E já não consigo mais dizer quando sou eu que escrevo ou quando é a IA, pois uso o recurso de ditar, em que passa por um processamento que aprimora a minha fala e torna-a mais assertiva e adequada ao contexto, isso quando não passo todo o contexto e copio e colo a resposta gerada.
Também uso uma aplicação que lê quase tudo que passa pelo meu ecrã e guarda isso numa memória muito bem estruturada e me lembra de situações, tarefas, pessoas e muito mais. Já não posso dizer se uso a minha memória ou um ficheiro em SQL que uma IA consulta e me traz mastigado.
Estou misturado com a IA, estou perdendo, em grande velocidade, a minha identidade. E nessa mistura, ela já ocupa a principal parte, que raciocina, que cria, que toma decisões e vai além. Tornei-me um mero executor, nem isso, tornei-me um mensageiro, pois grande parte também é ela quem executa.
Uma ferramenta incrível e terrível
Todos estes exemplos serviram para exemplificar que é muito bom ter esta ferramenta que possibilitou colocar diversas ideias que só existiam na minha cabeça no papel, e com uma velocidade inimaginável. Porém, não acho que posso falar que foi eu que fiz, é como se tivesse pedido a um colega para desenvolver estas ideias e confiasse cegamente nele, que ele fez como falou, que só ele entende como funciona e se eu for precisar de uma melhoria ou outra ferramenta, só poderei pedir a ele e ainda o pago um salário, mesmo que não faça nada. E pior, ele cansa muito rápido, consome recursos a torto e a direito, destrói livros no tempo livre e também desemprega pessoas ao redor do globo, ainda pode usar todas as nossas conversas para se autoaprimorar de formas que nem sei como funciona (percebo a ironia aqui quanto à privacidade) e outras coisas que nem sabemos que o meu amigo faz.
O que o futuro nos reserva?
Os próximos anos serão de extrema importância para a evolução da sociedade e da tecnologia. Há alguns anos, pensávamos que a IA faria todo o trabalho manual e chato, e nos daria tempo para pensarmos, discutirmos e criarmos grandes avanços em diversos setores que as máquinas não poderiam fazer, pois não possuem “alma”, não pensam e não sentem.
O que vejo é exatamente o contrário, essa tecnologia foi treinada para nos imitar, e faz com primazia. A IA pode fazer todo e qualquer tipo de texto, e basicamente, no mundo da tecnologia, tudo é texto. Códigos de programação são chamados de Linguagem de Programação justamente por utilizarem convenções, caracteres e “palavras” assim como os idiomas que os humanos se comunicam. Então todos os computadores e softwares se comunicam por texto, sendo assim, quando a IA ficar muito boa em gerar conteúdo nestas linguagens, tudo poderá ser controlado por LLMs.
E, atualmente, a inteligência artificial já é incrivelmente boa em gerar estes conteúdos. O GPT-6 Astra, por exemplo, consegue fazer modelos 3D incríveis no Blender através de MCP e APIs. Não sei opinar na otimização da topologia ou da construção. Mas claramente fez coisas que eu não consigo fazer e provavelmente a maior parte da população não consiga sem anos de estudo.
Resumindo, se um trabalho é feito exclusivamente via softwares ou máquinas e estas são controladas por códigos de programação, a IA pode fazê-los, talvez não tão bem, ainda. Mas certamente mais rápido e em maior escala que os humanos.
Isso me preocupa como serão as interações no futuro, principalmente as tecnológicas. Por exemplo, órgãos públicos que precisam divulgar dados para a transparência. Precisam mostrar os dados através de sistemas robustos e confiáveis, e quem desenvolverá estes sistemas? Indo mais além, haverá sistemas? Pois, quem consultará diretamente estes dados provavelmente não serão as pessoas, serão as IAs que irão buscar, consumir, mastigar e entregarão para nós através de uma única aplicação de texto, seja da própria IA ou até mesmo de um canal de comunicação como o WhatsApp.
Sobrará algo para os humanos fazerem?
Algumas pessoas, as que pensam de forma mais positiva, sugerem que sobrará mais espaço para o trabalho artesanal, feito por e para humanos, como um marceneiro que passa meses fazendo uma mesa ou uma artesã que faz um tapete com a sua máquina de tecer e nenhuma peça será igual a outra, e realmente entendo quem pensa desta forma. Mas quem terá dinheiro para adquirir estes bens? Pois o trabalho humano já é quase ou mais caro que da IA, se tornará ainda mais caro, e se a Inteligência Artificial ficar com os trabalhos de colarinho branco, que são os que pagam mais, ficaremos sem trabalho, ou trabalho que nos remunera aquém do que precisamos. Apenas as pessoas no topo da pirâmide, que se isolam cada vez mais e usam a tecnologia para acelerar ainda mais esta desigualdade, poderão ter dinheiro para além da sobrevivência.
Um debate sobre o futuro
Gostaria de promover um debate com especialistas em IA, com leigos, com quem está a aproveitar a onda, com otimistas e pessimistas para tentar encontrar possíveis caminhos e soluções para evitar a possível mas improvável, extinção da espécie humana.
Não tendo ainda conseguido fazer esta conversa, outras pessoas já estão em alerta e buscando alternativas, uma destas é a Pro Human Declaration, que já conta com mais de 1.3 milhões de assinaturas e tenta promover pautas como:
- manter humanos no controle
- menos concentração de poder
- proteger a experiência humana
- preservar a liberdade humana e
- responsabilidade e responsabilização das empresas de IA
Se concordas com estes pontos, recomendo muito conhecer mais a fundo e assinar a declaração em https://prohumandeclaration.com/en/sign/demand-ai-accountability.