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Mentir pra si mesmo


Desde muito novo eu sabia o que queria fazer. Cresci gostando da minha área, estudei pra ela, entrei cedo no mercado e fui evoluindo junto com ela. É na área de tecnologia, então a maior parte do tempo isso significa estar na frente de um computador. Por muito tempo foi presencial, porém com a a pandemia isso mudou e tive a oportunidade de começar a trabalhar remotamente.

No começo foi ótimo. Essa liberdade tem muito valor para mim, impagável mesmo. Só que com o tempo a gente começa a perceber os lados ruins, por que nem tudo são mil maravilhas. Então comecei a mentir para mim, como forma de ver menos defeitos.


Eu sempre brinquei que se o trabalho fosse bom, não pagavam a gente pra fazer

Mas eu nunca acreditei completamente nisso. Acho que o trabalho pode ser bom, que tem camadas aí que vale a pena abrir.

O problema é que abrir essas camadas às vezes revela coisas que a gente preferia não ver.

Assisti um vídeo da Hazel Thayer, “Work is a cult, here’s how to escape”, onde ela analisa a cultura do trabalho e como a nossa identidade acaba colada ao valor que a gente produz. Isso me pegou. Quando alguém pergunta quem você é, a resposta natural costuma ser a profissão. Eu sou engenheiro, eu sou arquiteto, eu trabalho com isso ou aquilo. A pessoa se torna o cargo.

Mas ninguém é o trabalho. Isso parece óbvio até você perceber que não é. Conheço gente que passou 20 anos numa área e depois foi pra outra completamente diferente. O que essa pessoa “é”? Não dá pra responder só pelo que ela faz, somos muito mais do que o nosso trabalho, acho inclusive que não deveria influenciar em nada da nossa personalidade.


O trabalho remoto e a falta de um lugar pra descansar

O trabalho remoto não exige que você trabalhe em casa. Mas acaba sendo isso que acontece pra maioria. E aí o espaço onde você descansa vira o mesmo onde você trabalha, e eles começam a se misturar de um jeito que é difícil de desfazer.

No começo parece ótimo. Terminei o trabalho, já estou em casa, vou jogar, ver uma série ou qualquer outra coisa. Mas vai chegando um ponto em que você quer separar, não quer ver o teu ambiente de trabalho no mesmo lugar que descansa, não quer sair do banho, olhar para uma tela e lembrar dos problemas do trabalho. Eu já penso que no futuro vou querer um espaço separado, um escritório afastado da casa, só pra poder sair de lá e saber que acabou o dia.

Porque enquanto você não sai de lugar nenhum, o trabalho não termina.

A IA entrou nessa equação

Pra mim, pelo menos, foi assim. Com a inteligência artificial eu percebi que muitas vezes eu nem penso mais. Peço pra IA fazer, ela faz, fica uma merda, mando refazer, fica aceitável, segue. E o meu senso crítico foi murchando nesse processo sem eu perceber.

Inclusive, estou fazendo isso agora. Esse texto nasceu de uma gravação de voz, vai virar post com ajuda de IA. Eu não gosto de escrever. Mas os pensamentos são meus, eu reviso tudo. Ou pelo menos é o que eu quero que continue sendo verdade daqui pra frente.


O desgosto que foi crescendo

Chegou um ponto em que eu estava extremamente desgostoso com o meu trabalho. A produtividade caiu, e não é que eu seja obcecado por produtividade, não é isso, mas eu gosto de entregar coisas. Eu escolhi esse trabalho. Tive o privilégio de poder escolher uma empresa boa, um ambiente razoável, uma remuneração ok. E mesmo assim eu estava no meu limite.

Reuniões demais, e-mails demais, chats e grupos sem fim, tudo é uma notificação e eu odeio deixar uma bolinha vermelha de notificação sem ler. Você também vai acumulando ranço de algumas pessoas, mais intimidade com outras, e o trabalho vai ficando pesado de um jeito que é coletivo. Reclamamos juntos através de uma video-chamada ou grupos de fofoca e alimentamos junto o ódio ao trabalho. Vai piorando em grupo.

Aquele colega que fala muito e entrega pouco, o que não sabe o que faz mas o problema acaba no seu colo, o chefe que é grosso ou que simplesmente não faz ideia do que você faz no dia a dia. Tudo isso também acontece no presencial, mas no remoto, eu to sempre vendo o meu escritório ali, lembrando de tudo.


A mentira que eu decidi começar a contar pra mim mesmo

Foi aí que eu comecei a tentar uma coisa, resolvi mentir pra mim mesmo de propósito. Me forçar a enxergar o lado bom do trabalho, sabendo que esse pensamento não é natural, que não é o que vem primeiro na minha cabeça.

Quando estou com o estresse no limite, pego um papel e escrevo o que eu gosto no trabalho. Hoje consigo listar apenas umas quatro ou cinco coisas: o modelo remoto, a remuneração que não é ruim, a flexibilidade de horário. Não é muita coisa. Mas é alguma coisa.

A ideia não é me convencer de que tá tudo ótimo. É forçar um novo circuito de pensamento, repetir até que eventualmente ele apareça sozinho. Positivididade quase tóxica, de propósito, como experimento.

Eu já senti alguma diferença pequena. Uma pessoa fez uma sugestão que antigamente eu teria descartado de cara, mas dessa vez eu consegui ver que tinha valor, mesmo vendo os problemas. Isso não parece muita coisa, mas pra mim foi.


Eu não sei se vai dar certo

Não tenho ideia se isso é sustentável no longo prazo. Por agora é o que tá me fazendo continuar com alguma motivação e Eu quero continuar tentando.

Nos próximos posts provavelmente vai aparecer alguma evolução disso, pra melhor ou pra pior. Tenho vontade de ver também se existe alguma linha filosófica ou científica sobre isso, sobre usar a autoilusão de forma intencional pra mudar o estado mental. Não sei se existe.