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O conhecimento liberta, mas a que custo?


Comecei a ler o livro “Educação como Prática da Liberdade” do Paulo Freire. E quando digo que comecei, é muito recente mesmo, ainda não passei das primeiras 10 páginas, mas já me trouxe vários pensamentos.

Me considero uma pessoa que está sempre em busca de conhecimento, por pura curiosidade. Às vezes tenho dúvidas ou acabei de descobrir em um assunto e me debruço sobre ele, quase um hiperfoco. Não é porque quero ser o sabichão ou porque pretendo ser liberto, é por mera e primitiva curiosidade.

Será que o conhecimento realmente nos liberta?

À primeira vista, é óbvio que sim. Fazendo uma analogia pobre e direta, se dentre os escravos não houvesse os incomodados, provavelmente considerariam natural aquela forma de trabalho, pois é o que era passado quase como uma religião na época. Então uniram-se, batalharam e depois de milhares de anos a escravidão formal desmoronou (sei que estou sendo simplista aqui e ignorando diversos fatores, mas é apenas para ilustrar).

Resumindo, o oprimido só sabe que está sendo alvo de opressão através do conhecimento, e assim descobre quem é o opressor.

Quanto mais conheço, mais sinto desesperança

Estou buscando algum hobby mais analógico, pois sou uma pessoa muito ligada à tecnologia e começo a me sentir sobrecarregado de tanta coisa ao mesmo tempo. Então, acabo pesquisando muito sobre fotografia, floricultura, marcenaria, entre outros trabalhos manuais. Inclusive, parece muito uma tendência destes anos.

Quanto mais eu estudo e aprendo sobre, mais sinto prostração. Pois para quaisquer destes hobbies preciso desembolsar grandes ou pequenas quantias. Mas não só isso, são atividades para me desligar, esquecer da realidade dura de trabalhar para (sobre)viver. É colocar um pano de água fria na cabeça para tratar a febre, amenizo o sintoma mas não resolvo a causa.

Na minha visão, a causa é o capitalismo, e ele se vende como um modelo socioeconômico natural, inato ao ser humano, como se sem este modelo não haveria mais nada. E é uma forma de se posicionar extremamente eficiente de perpetuar-se no poder. E justamente por isto, não consigo ver esperança nas pessoas de que existe algo diferente, não necessariamente melhor, mas me parece que ninguém mais consegue visualizar um mundo sem o capitalismo.

A tecnologia como ferramenta da perpetuação

Já falei um pouco disso no meu outro artigo, Inteligência Artificial e o nosso futuro. Mas recentemente tive uma discussão com uma colega sobre a possibilidade de valorização do artesanal. Eu quase não consigo ver isto, pois o pouco que consigo imaginar, me parece que será extremamente caro e difícil de obter, pois o trabalho feito com IAs se tornará cada vez mais barato, e hand-crafted será um nicho. Porém, quando estamos falando sobre valorizar, ainda é uma valorização monetária, não conseguimos abstrair o capitalismo no futuro, mesmo que seja distópico.

A tecnologia está tão imbuída em nosso cotidiano que já nem nos imaginamos sem comprar mais e mais dela. Os smartphones são uma extensão do nosso corpo. Não consigo nem contar quantas vezes pego esse pedaço de metal com vidro, desbloqueio e rolo sem nem saber o que quero fazer, olho as caixas de e-mails vazias, fotos que tirei ontem, a hora e nem consigo lembrar 2 minutos depois o que vi ou li. Tenho um aparelho que me custou 1000€ que serve apenas para rolar sem pensar e trocar mensagens, quando isso foi normalizado que eu nem percebi?

Estamos vendendo os nossos preciosos minutos de vida em troca de vídeos bestas de pessoas que nunca ouvimos falar fazendo coisas que não nos interessa, de desinformação e principalmente, em troca dos nossos dados, para que possam vender mais e mais coisas que não queremos.

A falta de conhecimento é uma benção

Meus pais, tios e avós não são pessoas preocupadas com buscar conhecimento além do necessário para realizarem o seu trabalho ou seus hobbies. Eles se divertem muito mais com as redes sociais, com vídeos feitos por IA ou de bandidos sendo mortos por roubarem um celular. Não existe a preocupação de que ao ver um vídeo sobre academia, o algoritmo da Meta perceba que é um dos seus interesses e comece a indicar mais vídeos, depois influencers que indicam produtos e por conseguinte faça-os comprar produtos que não precisam. Não, pelo contrário, eles consideram bom que algo que eles estavam a procura apareça convenientemente na palma de suas mãos no horário mais oportuno para comprar.

E eles parecem felizes, pelo menos para mim, estas preocupações não aparentam afligi-los como me aflige.

Por outro lado, vejo alguns dos meus colegas que compartilham dos mesmos interesses que eu, estão sempre mais cansados, com mais olheiras, cabisbaixos, desesperançosos e doentes. Então penso “estas são as pessoas que o conhecimento liberto, por que não parecem mais felizes?”. Não parecem pois enxergam que o problema é estrutural e não depende de indivíduos e sim do coletivo, porém quando as pessoas não conseguem nem enxergar um futuro diferente, ou que estão sendo oprimidas, elas não se juntam.

Liberdade a que custo?

Chego à conclusão, que, o conhecimento liberta, mas há um custo associado que muitas vezes pode não valer a pena. Óbvio que em diversas situações vale e muito, mas no meu caso, sinto que já tenho liberdade demais. Para ler, estudar, conhecer e inclusive estar escrevendo este texto que faz pouco ou nenhum sentido. Não queria estar nem pensando neste assunto.

Eu acho que seria mais feliz sem ter este conhecimento, mas agora é tarde demais, o saber tem sede de mais, e é insaciável. Não há como voltar atrás, por ora é impossível fazer uma lavagem cerebral e esquecer do que já sei. Sou refém do meu próprio conhecimento, o opressor da minha própria liberdade. Esta liberdade está começando a me custar a paz, o descanso, a relação com amigos, o tempo ocioso.