O sol ainda não aquecia as paredes frias das casas de pedra, e Madalena já seguia caminho para a Pombal Doce. Todos os dias vai à mesma pastelaria. O padeiro nem pergunta, já deixa preparado o seu café curto, cuja fumaça cria a sua própria atmosfera, uma tosta mista e um pastel de nata com uma pequena colher. Há quem se canse da rotina. Madalena, não: ela agarra-se como a um ursinho de pelúcia velho.
Ali, sentada na mesma mesa de sempre, fica vendo as pessoas acordarem, indo apressadas para o trabalho, todas com o pensamento voando sem parar e sem rumo. Um pequeno rádio toca músicas de Amália Rodrigues. Logo cedo o fado já esquenta o seu enorme coração vazio, com saudades dos que já se foram e que faziam companhia nesses momentos.
Sua casa fica subindo a rua, mas ela prefere descer, em direção ao centro, para sentir o cheiro do peixe fresco que inunda o mercado municipal e sobe pelas escadas do castelo.
— Cueeeeca! — Madalena ouve um grito de longe. Sabe que é a sua amiga de longa data, tentando vender peças de roupa para ajudar em casa. Ignora com um leve sorriso de canto e acena. Todos os dias ouve a mesma coisa e nunca se cansa.
Ao entrar no mercado, está decidida a não levar nada, apenas olhar e conversar as mesmas prosas dos dias que se passaram.
— Bom dia, senhora Madalena — António arranca a cabeça rosada de um saramunete, mais comprido que o seu antebraço. — Qual leva hoje?
— Bom dia. Hoje não levo nada, que só tem eu para comer em casa.
— Pois leve estas sardinhas por conta da casa, que já não passam de hoje — estendendo uma sacola verde-escura com um punhado de sardinhas e um punhado de gelo.
Madalena agradece, franzindo o nariz. Gosta muito de sardinhas, mas às quintas-feiras prefere comer uma bifana com ovos estrelados, e o frigorífico já está cheio de peixe. Já não se lembra da última vez que teve companhia para comer sardinhas assadas com batatas e muita risada.
Com a sua pequena sacola de peixes, começa a descer a Avenida dos Heróis do Ultramar. O trânsito parece mais barulhento do que o costume, como se os motores reclamassem de estar vivos. Duas crianças passam correndo, rindo alto, com sacolas batendo nas pernas. Uma delas canta uma música de Natal fora de tom. Madalena sorri, mas o som fica a ressoar dentro dela, estranho, como se a lembrança de outros natais estivesse tão longe que não a aquecem mais. A rua é a mesma de sempre, as pedras gastas, os carros, o vento, mas há qualquer coisa fora do lugar.
Ao chegar em casa, o cheiro de humidade sobressai às sardinhas que acabam de chegar, sem alguém para lhe ajudar a manter a o lar aconchegante, Madalena não consegue controlar o mofo e a água que tomam posse durante o inverno chuvoso. Decide descansar um pouco, a subida até o seu lugar é íngreme e escorregadia, há anos decidira morar perto do Castelo e hoje os joelhos cobram.
Depois de descansar, começa a arrumar as coisinhas dela, a temperar e preparar os legumes, e fazer o almoço para si. Contando as batidas da faca em sua tábua, tentando sincronizar com as batidas do temporizador em forma de ovo amarelinho.
É nesses momentos que ela lembra do marido. Teve o seu porto seguro por muito tempo, e nestes momentos de silêncio, sente saudades das suas brincadeiras sem graça ou quando ele resmungava sobre o gato da vizinha. Preferia muito mais estar nessa calmaria junto com ele, aproveitando todo esse silêncio ao lado dele.
Então ela termina o almoço, come sozinha admirando os pingos de chuva esparsos a cair sobre o parabrisas do carro ali abandonado. Com a barriga cheia, decide tomar uma soneca, deita-se e o rangindo da cama faz um som incomum, ritmado.
Ela se apercebe de que hoje é feriado. Na verdade é véspera: dia 24. No dia 25 é Natal. Ela não tem mais família para quem ir. Não tem mais os pais, não tem mais as irmãs e muito menos o seu grande amor. Todos com quem ela tinha para conviver nesse dia já faleceu, ou não existe mais.
Ao perceber, decide sentar-se. Uma inquietude toma conta da sua cabeça, e os pensamentos começam a correr depressa demais, uns por cima dos outros, sem que consiga agarrar nenhum. Tenta lembrar-se do que ainda precisa fazer, do que esqueceu, do que já não pode mudar. Depois levanta-se de repente, como quem foge de dentro da própria casa, pega no casaco e decide caminhar um pouco, só para ver se o frio da rua consegue calar aquilo tudo.
Acaba por encontrar algumas das suas amigas na pracinha, mulheres que aprenderam juntas a rir das dores pequenas para não dar nome às grandes. Queixam-se dos joelhos, da humidade, do preço dos ovos e da falta que faz um sol decente em dezembro. Madalena ri e por um instante parece mesmo pertencer àquela conversa. Só por um instante. Depois leva a mão ao peito, como quem confirma se ainda traz consigo uma chave antiga, e volta a sorrir antes que alguém repare. Vera percebe, sempre foi atenta às expressões das pessoas, quase um dom.
– Lena, já te disse que o teu lugar para a ceia ainda está guardado.
Madalena dá um sorriso tímido, repara que as luzes de natal já acenderam, e agradece de forma cordial. Odília, sempre muito desbocada, insiste.
– Ano passado disseste que iria pensar, até me enviaste um bolo rei delicioso e não apareceu. Vamos lá, a minha – E interrompeu-se abruptamente, levando a mão a boca como quem toma uma sopa muito quente.
Madalena sorri novamente, um pouco mais tímida e lenta do que fez para a Vera.
– Falando em bolo-rei, viram o preço este ano? Qualquer dia vendem só as frutas cristalizadas e chamam-lhe tradição. - Diz uma das amigas.
– Talvez eu passe um bocadinho, e se não passar, faço-te um bolo-rei, com a massa além das frutas. – Madalena levanta-se, continua a ouvir a conversa de fundo e vai em direção à sua casa. Já são horas e sente que precisa fazer o seu ritual para poder dormir.
Ao chegar. toma um banho e de novo se perde observando a fumaça que sai da água enquanto sente o calor subindo-lhe pelas costas até a pele parecer outra enquanto seus pés tocam a água fria que se acumula ao fundo da banheira, o contraste das temperaturas lhe conforta.
Depois do banho, sentava-se junto à janela e continuava o pequeno casaco de lã que prometera levar ao Centro de Recolha Animal. Dissera às voluntárias que era para o Neno, um cão velho, desses que já não ladram a pedir nada e com os olhos esbranquiçados como uma cortina sobre a sua alma. Ao medir a manga contra o antebraço, fazia-o com um cuidado antigo, quase materno, como se a lã ainda soubesse o tamanho de alguém.
Deita-se lentamente, com um sentimento de esperança incomum, de que algo pode acontecer. Um pensamento de que aquela noite vai ser diferente. Mas ela não consegue perceber o porquê.
Passam-se algumas horas. Madalena não consegue dormir, ficou algum tempo a ouvir a casa sossegar. O frigorífico fez o seu estalido de sempre, a madeira respondeu ao frio, e alguém passou com o carro sem pressa na rua. Tudo parecia obedecer à ordem pequena das noites comuns.
Foi por isso que o telefone, ao tocar, não pareceu um som. Pareceu uma interrupção.
Madalena abriu os olhos, mas não se mexeu logo. O toque repetiu-se sobre a mesa de cabeceira, havia algo nele que fazia não pertencer àquela noite. Estava distante, como se mesmo estendendo o braço, não conseguiria alcançá-lo.
Sente sua nuca ficar pesada, mas mesmo assim estica o braço para pegar o telefone, a sua mão trêmula quase não consegue levantá-lo da mesa. Atende o chamado e apenas ouve o som da própria respiração em descompasso através da linha, um tic-tac de relógio ao fundo misturando-se aos estalidos que a sua velha casinha fazia. O que Madalena pensava ser um chiado da estática aumenta e então diminui novamente, num movimento errático e inconstante.
Sente o peso de sua nuca descer até a garganta e novamente tenta falar, com a esperança ter alguém a ouvir os seus pensamentos através da linha, entretanto escuta novamente a sua respiração num ritmo completamente diferente e distante.
Afasta o telefone da orelha, olha para o pedaço de plástico cor-de-coral com a língua presa no céu-da-boca, o som do relógio cessa e ouve apenas os estalidos da casa, a respiração e os ruídos cessam, o tempo para. Aproxima novamente, com a boca aberta, pronta a falar, os sons voltam e então Madalena começa a falar mesmo sem a certeza de que exista alguém ouvindo do outro lado, ela desabafa:
– Eu era muito nova quando fui embora. Nova demais, talvez. Mas na altura não parecia cedo, parecia urgente. Havia nele uma coisa que me chamava muito alto, mais alto do que a voz do meu pai, mais alto do que a vergonha que a minha mãe fazia questão de deixar em cima da mesa, entre o pão e o silêncio.
– Eles não o queriam. Diziam que ele… não tinha estudos, que vinha de outra gente, de outra maneira de viver. Diziam isso como quem fala de uma doença que se apanha pelo nome. Eu ouvia, calava-me, e cada palavra deles fazia crescer em mim uma porta. Um dia, passei por ela. Fugi com ele.
– Depois disso, passamos por casas que não eram nossas, quartos emprestados, sofás onde eu dormia sem tirar os sapatos, porque nunca sabia se era para ficar ou para ir embora. Houve gente boa, também houve gente que nos recebia com uma mão e nos roubava com a outra.
– Mais tarde vieram os sítios sem nomes, prédios vazios e até barracas. Morámos em tantos lugares que às vezes misturo as paredes. Havia uma janela partida, lembro-me disso. Ou talvez fosse noutra casa. Não sei. Mas lembro-me do frio e da fome. Éramos novos… novos demais para entender a fome como uma coisa séria. Achávamos que bastava aguentar mais um dia. Depois outro. Depois outro.
– Ele dizia que ia melhorar. E eu… eu acreditava. Ou dizia que acreditava, e o segurava como se fosse meu cobertor.
– Com dezessete anos, meu deus, era uma menina… uma criança… parece-me uma idade inventada, uma idade pequena demais para caber uma decisão daquele tamanho. Na altura, porém, eu disse a mim mesma que estava a ser adulta.
– Não tínhamos nada, às vezes eu contava os pássaros na calçada para distrair da fome, noutras eu cantava para conseguir um pedaço de pão, ou era de carne? Então começámos a dizer que uma criança merecia mais. Merecia uma cama e uma sopa quente.
– Com o tempo, só dizer desculpas para nós mesmos não era suficiente, dormir tremendo e acordar com o ronco das nossas barrigas fazia parecer impossível cuidar dela. Foi então que apareceu ela, ou foi ele? Ofereceram-me pagar. Uma quantia de dinheiro que não sabia que existia, nem cabia na minha cabeça, vi ali que talvez pudesse dar-lhe uma vida.
O telefone começa a escorregar em seu rosto, seu peso já não é de um objeto deste mundo, o seu tamanho não cabe na mão e Madalena começa a segurá-lo com as duas mãos.
– Tinha uma casa com a janela partida. Não sei se foi antes ou depois. Já não sei. Mas havia uma janela, disso eu lembro. O vidro ficava no chão como unhas do pé que ele roía, espalhado junto à parede, e o vento entrava por ali sem pedir licença, como se a casa fosse dele e nós é que estivéssemos de favor.
– Eu punha um pano, às vezes. Mas o frio encontrava sempre uma beira por onde passar. Ele dizia que no dia seguinte arranjava. Amanhã, dizia. Amanhã compro massa, amanhã falo com um homem, amanhã isto muda. E eu acreditava no amanhã porque não tinha mais no que acreditar.
– Talvez não fosse essa casa. Talvez essa tenha vindo depois. Havia tantas paredes, tantas humidades, tantos tetos a pingar no mesmo. Mas a janela… a janela era aquela azul. Ou era amarela. Eu fazia de tudo pra ela não apanhar frio.
– Aquele pedaço de esperança que crescia dentro mim já se fundia a mim, mas não queria que o vento a abraçasse também, não como me abraçava. Queria que sentisse a brisa do mar sob um sol que reflete o brilho dela, esquentando o seu coração. Por isso decidir aceitar… Eu precisava… Não, ela precisava, pois não iria sobreviver comigo.
– Durante toda a gestação os Figueiredo cuidaram de mim. Ou talvez não fosse esse o nome. Havia um nome na campainha, em letras douradas, disso eu lembro. A casa cheirava a cera no chão e a limão, nunca vi uma casa cheirar a limão. Davam-me comida, uma cama limpa, consultas, vitaminas. Diziam que ela precisava descansar, que ela precisava nascer forte. Ela. Às vezes diziam assim, como se eu já não estivesse no meio.
– A senhora pousava a mão na barriga antes de perguntar se podia. Não era má. Não, não era isso, mas também parecia não encostar em mim, como se eu fosse um tecido. Mandava trazerem-me chá, dobrarem uma manta sobre os meus joelhos, tinha um médico que vinha correndo quando eu ficava pálida. Eu devia agradecer e eu agradecia. Acho que agradecia. Mas havia qualquer coisa no modo como ela sorria para a minha barriga que fazia o meu coração bater depressa, depressa demais, como se quisesse sair antes da criança.
Madalena parou. O chiado da linha pareceu crescer, ou talvez fosse só o sangue no ouvido. Tentou mudar o telefone de lado, mas as mãos demoraram a obedecer.
– No dia do parto, eu já sabia. Já sabia que não queria. Ou queria. Não. Não queria entregar. Ele estava comigo. O meu marido. Sentado junto à parede, com o chapéu nas mãos. Não falava. Só olhava para o chão, como se no chão houvesse uma resposta. Eu procurei a mão dele uma vez. Ou ele que procurou. Apertou a minha. Ou talvez tenha sido eu que apertei a dele. Já não sei.
– O dinheiro já tinha vindo. Já tinha entrado na minha vida antes dela. Antes da minha menina. Estava tudo certo. Diziam isso. Tudo certo. Nasceu pequena. Quente. Com a boca aberta antes do choro. Eu ouvi. Ouvi primeiro o ar. Depois ouvi o choro, com gosto ardido e adocicado, o choro mais bonito que ouvi em toda a minha vida.
Madalena tentou respirar fundo. O som saiu curto, preso. O telefone escorregou um pouco na sua mão. Ela tentou segurá-lo melhor, mas os dedos estavam dormentes. Já não sentia o telefone em suas mãos.
– Deixaram-me vê-la pouco. Muito pouco. Havia uma manta branca por cima, não sei se os olhos dela puxaram os meus ou o dele, se são azuis como a janela ou castanhos. O berço ficava perto da janela. Não a janela partida. Outra. Limpa. Grande. Com cortinas que não se mexiam.
– Eu pensei: é aqui que ela vai ficar.
– Pensei: ao menos não vai ter frio.
– Pensei: perdoa-me.
– Não sei se pensei. Talvez tenha dito. Talvez só tenha mexido a boca.
– No dia seguinte, deram-me as minhas coisas. Eram poucas. Um vestido. Um xaile. Um saco com a roupa que eu tinha trazido. A senhora falou baixo. Disse que eu precisava descansar noutro lugar. Que era melhor assim. Melhor para todos.
– Para todos.
– O meu marido levantou-se primeiro. Não disse nada. Tinha a cara de um homem que envelheceu durante a noite. Eu quis odiá-lo por não partir a casa inteira. Por não pegar ela. Por não pegar em mim. Mas ele também não tinha força. Nós nunca tivemos.
– Passei pelo corredor. Devagar. Já não cheirava a limão. Cheirava vinagre. Ou alcool. Não sei. A porta do quarto estava meio aberta. Vi o berço. Só o berço. Um pedaço da manta. Talvez o pé dela.
– Eu parei. A senhora fechou a porta. Com cuidado. Como quem fecha uma gaveta de diamantes. Depois abriram a outra porta. A da rua. Sem o mesmo cuidado. E nós saímos. Sem ela.
– Esse foi o meu maior erro. Não sei se erro é a palavra. Mas foi o que ficou. Ficou quando tudo o resto saiu de mim. Ele nunca a viu. O meu marido. Nunca segurou nela. Nunca soubemos o nome dela. Às vezes eu acordava e ele estava sentado na cozinha, com as mãos paradas em cima da mesa, como se ainda esperasse que alguém lhe trouxesse a menina. Morreu assim. À espera.
Madalena respirou, mas o ar pareceu não chegar inteiro. A linha devolveu-lhe um som pequeno, húmido, talvez o seu, talvez de alguém do outro lado. Ela já não soube distinguir.
– Eu também fiquei. Fiquei aqui. Nesta casa. Neste silêncio. A pensar nela. Todos os dias. Não, todos não. Houve dias em que pensei nele. Na chuva. Na conta da luz. Mas ela estava sempre lá.
– Eu podia ter morrido antes. Devia ter ido junto com ele. Depois dele ir, não havia muito. Havia a cama. A janela. O tricô. As vozes das outras mulheres na praça. Havia Natal, todos os anos, a bater à porta como se eu ainda tivesse família. Mas o amor da minha vida foi-se. E o segundo…
A voz falhou. Madalena fechou os olhos. O auscultador escorregou mais um pouco, preso apenas entre a face e a mão frouxa. E então ela ouve, de relance:
— Feliz Natal, m…
Houve duas batidas. Depois, o som comprido da linha aberta.