<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss version="2.0" xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/" xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom"><channel><title>Niaso</title><description>Escritos e fotos. Sem categoria fixa, sem compromisso — só coisas que me pareceram dignas de registro.</description><link>https://niaso.vercel.app/</link><atom:link href="https://niaso.vercel.app/rss.xml" rel="self" type="application/rss+xml"/><language>pt-BR</language><item><title>Acompanhar minha vida não é o mesmo que se conectar comigo</title><link>https://niaso.vercel.app/posts/acompanhar-minha-vida-nao-e-o-mesmo-que-se-conectar-comigo/</link><guid isPermaLink="true">https://niaso.vercel.app/posts/acompanhar-minha-vida-nao-e-o-mesmo-que-se-conectar-comigo/</guid><description>Uma reflexão sobre exposição, privacidade e a diferença entre ver a vida de alguém num feed e procurar saber como ela está.</description><pubDate>Thu, 15 Oct 2026 00:00:00 GMT</pubDate><content:encoded>&lt;p&gt;Eu não sei muito bem para que serve o Instagram. Nunca fui muito a fim de utilizar redes sociais, não tenho esse perfil, e o pior de tudo: eu julgo as pessoas que usam.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ao meu ver, redes sociais, principalmente o Insta e Facebook funcionam para duas coisas: para que você veja o que as pessoas estão postando ou para você postar a fim das pessoas verem. Não consigo mesmo entender as pessoas que tem interesse em estar atualizados na vida de outrem. Para mim, nada interessa a vida dos outros.&lt;/p&gt;
&lt;h2 id=&quot;a-exposição-de-dados-sensíveis&quot;&gt;A exposição de dados sensíveis&lt;/h2&gt;
&lt;p&gt;Cada vez mais as pessoas expõe as suas vidas em troca de visualizações e likes. Parece que querem aumentar a sua auto-estima com validação externa, isso mina a própria validação interna, torna a estima refém do outro. Já vi muita gente expondo filhos, pais, avós, familiares e informações extremamente pessoais em troca de 15 segundos de fama.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mesmo que não tenha redes sociais e tente ser anônimo, como eu tento, a sua vida pode estar exposta. Certa vez, alguém me disse que acompanhava as coisas da minha vida, pois a minha parceira ou meus familiares postam vídeos ou imagens em que eu estou. Minha reação imediata foi de procurar saber porque ela queria acompanhar a minha vida, e se queria, por que não foi falar diretamente comigo?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Vi, recentemente, que a Meta cria um perfil fantasma das pessoas que não tem redes sociais para que ainda assim consigam vender anúncios. Eles conectam diversos fatores como posts, com reconhecimento facial, padrões de mensagens trocada pelo WhatsApp, acessos em sites que têm o rastreador &lt;em&gt;pixel&lt;/em&gt;. Para mim, é claramente uma violação da privacidade, e pior, causada por terceiros, pois não consigo ter controle do que postam.&lt;/p&gt;
&lt;h2 id=&quot;a-futilidade-de-estar-sempre-conectado&quot;&gt;A futilidade de estar sempre conectado&lt;/h2&gt;
&lt;p&gt;Às vezes pego um smartphone para fazer um &lt;em&gt;doomscroll básico&lt;/em&gt;, pois quero fritar o meu cérebro, para desanuviar e fugir da realidade. E começo a ver os &lt;em&gt;reels&lt;/em&gt; e em dois ou três minutos já estou de saco cheio destes vídeos, são, quase sempre, coisas muito imbecis, extremismos e falas desnecessárias com apenas o intuito de gerar reações. A futilidade do mundo das redes sociais me incomoda.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Um argumento que sempre ouço é que aproxima as pessoas. Eu moro distante da minha cidade de origem, e sempre me dizem que se eu postasse mais, os meus familiares se sentiriam mais próximos de mim. Porra, o WhatsApp já funciona para isto. Sei que esta plataforma também é uma rede social, mas acho que o meu ponto está claro. Poderia ser por mensagem, FaceTime, Telegram ou qualquer outro meio. Quer saber como uma pessoa está? Liga para ela, envia uma mensagem, separa 5 minutos do seu “precioso” tempo para realmente se conectar.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Estar acompanhando a vida do outro através de um feed não te aproxima desta pessoa. É tudo muito superficial, todos estão polindo e validando o próprio ego em troca de migalhas, ou pior, de fornecer, de mão beijada um relatório detalhado da sua vida e de outros para empresas lucrarem ou até para pessoas mal intencionadas.&lt;/p&gt;</content:encoded><category>redes sociais</category><category>privacidade</category><category>exposição</category><category>conexão humana</category></item><item><title>Ads em todos os lugares</title><link>https://niaso.vercel.app/posts/ads-em-todos-os-lugares/</link><guid isPermaLink="true">https://niaso.vercel.app/posts/ads-em-todos-os-lugares/</guid><description>Uma reflexão sobre como os anúncios pagos transformam atenção em mercadoria e tornam cada vez mais difícil distinguir vontade própria de consumo induzido.</description><pubDate>Wed, 02 Sep 2026 00:00:00 GMT</pubDate><content:encoded>&lt;p&gt;Venho estudando um pouco, bem pouco, quase nada sobre marketing digital. No meu trabalho e em um projeto pessoal precisei recorrer aos anúncios pagos, vulgo &lt;em&gt;ads&lt;/em&gt;, e comecei a perceber um pouco como funciona este mundo do custo por clique e de pagar para as pessoas virem a sua empresa.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Um exemplo, fiz alguns anúncios no Google Ads, com o valor mínimo diário, se não me engano, 5€. Além de ser extremamente complexo, cheio de informações e leilões de palavras-chave, a própria ferramenta oferece funcionalidades “plus” para que seu anúncio converta melhor, ou chegue em mais pessoas, é a monetização da monetização. Entretanto, percebi que funciona: com apenas 3 dias de anúncios, o número de usuários do meu projeto subiu bastante.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Em outra situação, acompanho o trabalho de uma equipa de marketing que está a gerir anúncios no Instagram. A conta não consegui alcançar novas pessoas e mesmo as que viam não interagiam. Então o trabalho que vinha sendo feito não aparecia tanto, talvez não fosse pela qualidade do conteúdo, mas pela forma como o algoritmo funciona. No momento que começaram os anúncios, a interação com os posts aumentou em mais de 100% (no período de apenas uma semana).&lt;/p&gt;
&lt;h2 id=&quot;parece-que-estou-indicando-os-ads-mas-não-estou&quot;&gt;Parece que estou indicando os Ads, mas não estou&lt;/h2&gt;
&lt;p&gt;Falei por alguns parágrafos como anúncios pagos funcionam lindamente e trazem muitos resultados, mas é exatamente aí que está o meu ponto. &lt;strong&gt;Toda a internet está sendo manipulada empresas ditarem o que vemos ou não.&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Recentemente um amigo pediu a minha opinião sobre e-readers com tela e-ink. Um nome complexo para leitor de livro digital, o que mais me surpreendeu é que ele estava na dúvida entre 3 ou 4 opções de mais de 600 reais, se atenderiam ou não a necessidade dele, se as limitações do kindle me impediam de usá-lo. A minha resposta foi muito simples: escolha o mais barato que tenha backlight (para ler no escuro) e que dê para importar .EPUBs, mais do que isso é puro suco do consumismo capitalista.
O algoritmo das redes sociais dele está indicando sem parar anúncios sobre funcionalidade x ou y, influencers que são pagos para falar bem de produtos ou até mesmo de outras pessoas que são influenciadas e repetem o comportamento.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Já não dá para saber o que é uma coisa que eu genuinamente quero ou algo que fui influenciado a querer. Mesmo não tendo as redes sociais tradicionais, acesso esporadicamente o Reddit e consumo muito conteúdo do Youtube, nestes canais também sou inundado com anúncios e conteúdos que me influenciam a comprar algo. Sabe aquela brincadeira que dizemos que o celular nos escuta? Sempre que falamos que queremos uma air fryer, logo em seguida aparece anúncios de várias marcas e modelos, os posts que aparecem  “naturalmente” só falam de air fryers. Na verdade esse pedaço de vidro em nossos bolsos não nos ouve, faz algo muito pior: dita o que passará na nossas cabeças, em escala global.&lt;/p&gt;
&lt;h2 id=&quot;sem-luz-na-fim-do-túnel&quot;&gt;Sem luz na fim do túnel&lt;/h2&gt;
&lt;p&gt;Estava a falar com a minha esposa, de que estamos sempre ouvindo música dentro das nossas cabeças, e às vezes cantarolamos ou dançamos em situações sem nexo. E brincamos com a hipótese do nosso Spotify interno ter anúncios, só de imaginar a cena de termos propagandas em nossas cabeças parece um futuro distópico onde deu tudo errado e o projeto Neuralink do &lt;em&gt;Hélio mosca&lt;/em&gt; foi instalado, como o chip da besta, nas cabeças de todas as pessoas, como forma de disponibilizar um serviço inovador para todos nós.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mas na verdade esse futuro distópico já acontece, enquanto ouço as minhas playlists internas me vem uma vontade absurda de comer leite condensado com Ovomaltine ou de que um drone irá resolver todos os meus problemas, desde a falta de exercícios até adicionar sentido nos meus hobbies. Estas vontades são anúncios, que nem precisaram ser injetadas nas minhas entranhas, foi de uma forma muito mais sútil, com influencia paga.&lt;/p&gt;
&lt;h2 id=&quot;como-faço-para-me-esquivar&quot;&gt;Como faço para me esquivar&lt;/h2&gt;
&lt;p&gt;Basicamente, não faço. É muito mais difícil e complexo do que utilizar bloqueadores de anúncios, privar-me de redes sociais ou ir para o meio do mato para criar galinhas livres.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Embora, eu faça sim algumas destas coisas:&lt;/p&gt;
&lt;ul&gt;
&lt;li&gt;
&lt;p&gt;Não utilizo utilizo o Instagram, nem o X (Antigo twitter)&lt;/p&gt;
&lt;/li&gt;
&lt;li&gt;
&lt;p&gt;Utilizo o Zen Browser, focado em privacidade&lt;/p&gt;
&lt;/li&gt;
&lt;li&gt;
&lt;p&gt;Instalei extensões de navegador&lt;/p&gt;
&lt;ul&gt;
&lt;li&gt;uBlock Origin&lt;/li&gt;
&lt;li&gt;AdGuard&lt;/li&gt;
&lt;li&gt;ClearURLs&lt;/li&gt;
&lt;li&gt;Consent-O-Matic&lt;/li&gt;
&lt;li&gt;SponsorBlock para YouTube&lt;/li&gt;
&lt;li&gt;Firefox Multi-Account Containers&lt;/li&gt;
&lt;li&gt;uBlocklist&lt;/li&gt;
&lt;li&gt;UnTrap for Youtube&lt;/li&gt;
&lt;li&gt;Block Site&lt;/li&gt;
&lt;li&gt;Mutable&lt;/li&gt;
&lt;/ul&gt;
&lt;/li&gt;
&lt;li&gt;
&lt;p&gt;Utilizo DNS do AdGuard para bloquear anúncios no celular&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E recomendo que se quiserem diminuir a influência do oligopólio das empresas de tecnologia, façam o mesmo. Mas não resolverá de todo, pois o problema é estrutural e global. As pessoas ao nosso redor são influenciadas e influenciam umas as outras e não tenho nem ideia de como resolver isto. Como podemos fazer para distinguir queremos daquilo que fomos ensinados a querer?&lt;/p&gt;
&lt;/li&gt;
&lt;/ul&gt;</content:encoded><category>estilo de vida</category><category>trabalho</category><category>reflexão</category></item><item><title>Conclusões diferentes a respeito de trabalho como identidade</title><link>https://niaso.vercel.app/posts/conclusoes-diferentes-a-respeito-de-trabalho-como-identidade/</link><guid isPermaLink="true">https://niaso.vercel.app/posts/conclusoes-diferentes-a-respeito-de-trabalho-como-identidade/</guid><description>Um vídeo do Filosofia Infinita cruzou com o que escrevi sobre mentir pra si, mas a conclusão que tirei foi outra.</description><pubDate>Fri, 03 Jul 2026 00:00:00 GMT</pubDate><content:encoded>&lt;p&gt;Fiz um post recentemente sobre &lt;a href=&quot;/posts/mentir-para-si-mesmo/&quot;&gt;mentir para mim mesmo&lt;/a&gt;, que fala um pouco sobre mentir para mim mesmo para eu poder tornar o trabalho &lt;em&gt;suportável&lt;/em&gt; e eu poder me sentir melhor comigo mesmo. Continuo fazendo isso. E hoje me surpreendi com um vídeo que apareceu no YouTube. Era do canal &lt;a href=&quot;https://www.youtube.com/@FilosofiaInfinita&quot; rel=&quot;nofollow, noreferrer&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;Filosofia Infinita&lt;/a&gt;, uma reflexão do Hugo, em que ele aborda a desconstrução da ideia de que o trabalho deve ser a principal identidade e propósito de vida da pessoa. Isso vem muito de uma mistura com a religião. Ele cita Max Weber, em &lt;em&gt;A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo&lt;/em&gt;, o calvinismo para explicar a transformação do trabalho em virtude e propósito divino, mas a raiz disso já vem antes, com Martinho Lutero e a Reforma Protestante: foi Lutero quem introduziu o conceito de &lt;em&gt;Beruf&lt;/em&gt;, vocação, defendendo que o trabalho secular era a maior obrigação moral do indivíduo e a melhor forma de agradar a deus. Depois o calvinismo radicalizou isso, associando sucesso no trabalho e disciplina rígida a sinais de salvação divina, e foi aí que o esforço profissional virou motivo de orgulho, virtude, base do espírito do capitalismo moderno.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Encaixou muito. Parece que ele leu minha mente e conseguiu trazer palavras, trazer fontes, para tudo aquilo que eu tava pensando e que eu queria dizer, e que eu não tinha recurso para isso. Porém, acho que a gente tomou caminhos diferentes na conclusão. Ele está em busca de mais conhecimento, tem o clube do livro dele, que achei muito interessante, inclusive vou deixar aqui para quem quiser se inscrever: &lt;a href=&quot;https://www.filosofiainfinita.com.br/clube&quot; rel=&quot;nofollow, noreferrer&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;o clube do livro do Filosofia Infinita&lt;/a&gt;. E eu estou em busca de um mecanismo de autodefesa baseado em &lt;em&gt;ignorância&lt;/em&gt;.&lt;/p&gt;
&lt;h2 id=&quot;o-trabalho-como-armadilha-estrutural&quot;&gt;O trabalho como armadilha estrutural&lt;/h2&gt;
&lt;p&gt;No vídeo, o Hugo mostra que isso é uma coisa muito estrutural do capitalismo, e eu concordo sem sombra de dúvidas com essa origem. É exatamente isso que as pessoas que detêm o capital querem: que a gente tome o trabalho como identidade, que acreditemos que temos um propósito nele, que o trabalho é a nossa identidade e que vamos encontrar a felicidade trabalhando. Mas ele diz uma coisa que me lembrou uma frase que levo como verdade: “nenhum trabalho é bom, bom é não ter que trabalhar” (SEU MADRUGA, s.d.).&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O autor também dá um exemplo de um pianista que era excelente e amava tocar. Certo dia, alguém fala para ele “Olha, você devia ganhar dinheiro com piano”, ele começa a dar aulas, concertos, etc. e deixa fatalmente de gostar de piano.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Já aconteceu isso comigo. Eu gostava muito de fotografia. Comprei uma câmera, comprei algumas lentes, fui lá tentar ser fotógrafo, porque as pessoas disseram que eu era bom com fotografia. E eu passei a odiar fotografia. Vendi minha câmera, vendi tudo, e perdi um hobby que eu gostava e passava horas com ele, horas não produtivas, que inclusive o Hugo recomenda termos e, infelizmente, deixei de ter.&lt;/p&gt;
&lt;h2 id=&quot;onde-os-pensamentos-divergem&quot;&gt;Onde os pensamentos divergem&lt;/h2&gt;
&lt;p&gt;A conclusão que chegamos é diferente, e penso que ele está mais certo do que eu: o Hugo diz que a devemos lutar no coletivo para conseguir condições melhores para sairmos dessa armadilha do capitalismo juntos. Então temos que estudar mais, procurar mais e melhores informações, buscar mais conhecimento. Já a minha visão é uma autodefesa individual, para me proteger, talvez esse caminho não seja o certo, mas sinto ser o que preciso.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E tem uma perspectiva que pode estar bem errada do meu lado, &lt;strong&gt;que quanto mais conhecimento tenho, menos feliz estou&lt;/strong&gt;. Mais injustiças vejo no mundo, mais problemas percebo nas falas e nos atos das pessoas. E, ao mesmo tempo, vejo algumas pessoas do meu círculo social que não têm tanto conhecimento, ou que buscam conhecimento em outras áreas que não são numa área mais filosófica e questionadora, e estão bem mais felizes do que eu.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Tenho alguns amigos que trabalham como pintores, soldadores, pedreiros, auxiliares de pedreiro, na restauração ou em outras áreas mais manuais. E eles estão muito satisfeitos com o trabalho. Trabalham apenas no horário que são contratados, recebem o salário deles, e o resto do dia curtem a própria vida. Se falar com eles, estão satisfeitos, felizes e indo atrás das &lt;em&gt;coisinhas&lt;/em&gt; deles.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E eu aqui, com um trabalho sentado, calmo, com horário flexível, me questionando se o serviço é bom, se me completa ou se me deixa realizado. Sendo que tenho a liberdade de horário que essas pessoas não têm, um salário às vezes consideravelmente mais alto, e mesmo assim tentando encontrar justificação ou sentido, sendo que poderia simplesmente aceitar que é apenas um ofício e curtir a minha vida.&lt;/p&gt;
&lt;h2 id=&quot;momentos-de-vida-diferentes&quot;&gt;Momentos de vida diferentes&lt;/h2&gt;
&lt;p&gt;O que ele pede é que lutamos para que todos tenham o que tenho, uma profissão tranquila, e principalmente que seja só uma parte do nosso dia, nem uma parte da nossa personalidade, &lt;strong&gt;só uma parte do dia&lt;/strong&gt;, de preferência, apenas um dia na semana. E eu estou mais com outro tipo de pensamento: vou ficar na minha, vou ficar quieto, lutar pelo meu bem-estar.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;É só uma conclusão que tirei do vídeo. Acho muito nobre a visão dele, e o que está tentando fazer. A minha visão hoje é um pouco diferente, eu estou lutando um pouco mais por mim. Talvez quando eu tiver com a saúde estabilizada, eu consiga fazer um pouco do que ele está fazendo, lutar em busca de uma melhora para todos.&lt;/p&gt;
&lt;hr&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Referências&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;ul&gt;
&lt;li&gt;&lt;a href=&quot;https://www.youtube.com/watch?v=He9yKqMstsg&quot; rel=&quot;nofollow, noreferrer&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;Filosofia Infinita — vídeo sobre trabalho e identidade&lt;/a&gt;&lt;/li&gt;
&lt;li&gt;&lt;a href=&quot;https://www.filosofiainfinita.com.br/clube&quot; rel=&quot;nofollow, noreferrer&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;Clube do livro do Filosofia Infinita&lt;/a&gt;&lt;/li&gt;
&lt;/ul&gt;</content:encoded><category>trabalho</category><category>reflexão</category><category>saúde mental</category></item><item><title>Nem oito, nem oitenta. Quarenta e quatro.</title><link>https://niaso.vercel.app/posts/entre-a-camera-falsa-de-descartavel-e-o-sonho-do-sitio/</link><guid isPermaLink="true">https://niaso.vercel.app/posts/entre-a-camera-falsa-de-descartavel-e-o-sonho-do-sitio/</guid><description>Sobre querer viver de um jeito mais simples, os problemas escondidos atrás dessa vontade, e por que a resposta está sempre no meio do caminho.</description><pubDate>Mon, 27 Jul 2026 00:00:00 GMT</pubDate><content:encoded>&lt;p&gt;Continuando um pouco na pegada do &lt;a href=&quot;/posts/o-que-a-sony-quer-tirar-da-gente/&quot; target=&quot;_blank&quot; rel=&quot;noopener noreferrer&quot;&gt; último post&lt;/a&gt;, sobre a Sony anunciar que os jogos do PlayStation 5 agora serão só digitais, lembrei de outros pensamentos que venho tendo sobre esse movimento que parece acontecer cada vez mais, o de querermos ser mais analógicos, ter mais controle sobre o que expomos, mais controle sobre o que fazemos da nossa vida no geral, mais tempo pra nossa vida. Pensei também nessas câmeras retro/vintage atuais. Tem as descartáveis, que voltaram na moda, e as pessoas agora estão revelando foto de novo. Mas tem as que fingem que são descartáveis, tem a &lt;a href=&quot;https://www.sousovina.pt/produtos/1364264-maquina-fotografica-porta-chaves-kodak-charmera-caixa-surpresa-envio-aleatorio&quot; rel=&quot;nofollow, noreferrer&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;Kodak Charmera&lt;/a&gt;, tem a &lt;a href=&quot;https://www.campsnapphoto.com/products/camp-snap-2&quot; rel=&quot;nofollow, noreferrer&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;Camp Snap&lt;/a&gt;, entre outras. Me parece que as pessoas estão em busca daquele sentimento de que a foto está capturando o momento, não a realidade em si. Hoje em dia as câmeras de celular estão cada vez mais avançadas, cada vez mais incríveis, tiram foto com HDR, as sombras ficam claras, os claros ficam escuros, tudo fica em foco, tudo muito ótimo, mas as fotos não têm sentimento nenhum, elas não estão guardando uma lembrança, estão guardando um registro fotográfico. E as pessoas acabam tirando dez, quinze fotos, depois ficam olhando a foto pra ver qual foi a melhor, e esquecem de aproveitar o momento.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Não só isso. Em questão de aproveitar o momento, as pessoas nas cidades grandes vivem pro trabalho. Já falei sobre isso, sobre trabalho como identidade, aqui no site. Mas cada vez mais vejo pessoas desses centros, principalmente millennials, dos anos 90, falando que querem ir pro interior morar num sítio, ter uma fazenda. Eu mesmo já quis muito ter isso.&lt;/p&gt;
&lt;h2 id=&quot;o-que-é-morar-num-sítio-de-verdade&quot;&gt;O que é morar num sítio de verdade&lt;/h2&gt;
&lt;p&gt;Só que me parece que as pessoas não percebem o que isso significa, o que é morar num sítio. Eu também não sei exatamente o que é, porque nunca morei em um, mas já visitei, tenho parentes próximos que têm sítio, fazenda ou vivem numa chácara, e mesmo nesse pouco tempo de convívio, dá para perceber como a vida é diferente. Primeiro, imagina você a quarenta minutos de um hospital, ou cinquenta minutos de um centro comercial. Se tem uma emergência, é você e deus. Ou se acaba o gás no meio de uma refeição, como você vai fazer? Claro que muita gente tem fogão a lenha, mas dá para entender meu ponto.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Como é criar uma galinha? Ter, de certa forma, apego a ela e depois matar pra poder comer. Como é criar gado ou porcos, os problemas do mato, insetos, escorpiões, etc. Parece que todo mundo está idealizando, eu inclusive, essa vida mais simples, mas sem ver as dificuldades, o outro lado da moeda.&lt;/p&gt;
&lt;h2 id=&quot;nem-oito-nem-oitenta&quot;&gt;Nem oito, nem oitenta&lt;/h2&gt;
&lt;p&gt;Acho que a vida num centro urbano, como São Paulo ou Paris, também não é lá essas coisas. Vejo nas séries de Nova York todo mundo correndo, como em &lt;em&gt;O Diabo Veste Prada 2&lt;/em&gt;, todo mundo com café na mão, louco pra fazer o trabalho, chegando em casa, dormindo, voltando para trabalhar. Isso também não é vida, com certeza. Mas não acho que o outro extremo seja a solução.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Vejo, por exemplo, na cidade que eu moro, uma cidade pequena. Estou a poucos minutos de centros comerciais, hospitais, padarias, farmácias, etc. Tem uma cidade maior por perto. E sinto que tenho tudo, consigo fazer a maior parte das minhas coisas a pé, mas se preciso de um carro, tenho um carro à disposição.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Acho que não estou ali no meio termo exato, moro num apartamento, poderia ser uma casa com um jardim. Mas acredito que a solução não é nem oito, nem oitenta, é o quarenta e quatro. É a metade do caminho, um pouco pra lá, um pouco pra cá. E acho que podemos ter os benefícios de uma vida calma com os benefícios de uma vida urbana, com coisas pra fazer, com pessoas pra se relacionar, sem estar cem por cento isolado. Claro que, em cada uma das opções, teremos que abrir mão de alguma coisa, isso é normal, mas quando estamos no quarenta e quatro abrimos mão de menos coisas.&lt;/p&gt;
&lt;h2 id=&quot;o-trabalho-que-a-ia-não-vai-fazer&quot;&gt;O trabalho que a IA não vai fazer&lt;/h2&gt;
&lt;p&gt;O êxodo rural não aconteceu à toa, claro que foi muito da demanda da revolução industrial, dos empregos, mas o êxodo urbano não me parece ser a solução. As pessoas saíram do campo por um motivo. Agora, com a IA, temos a discussão se vai sobrar trabalho para os humanos. Acho que a IA pode fazer muita coisa, mas os trabalhos para pessoas vão continuar existindo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Uma IA não vai conseguir, não por enquanto, construir uma casa, arrumar a canalização, atender um paciente no hospital ou dar banho no seu pet. O trabalho vai continuar existindo, provavelmente vão nascer novos trabalhos, e vamos continuar nas cidades. Pode ser que as pequenas cidades cresçam (e acho que é o certo) porque as pessoas vão poder ir a outros lugares, vão ter que aprender novas habilidades que essas cidades pequenas carecem, seja mão de obra de atendimento, de construção ou que nem sabemos ainda.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Se eu puder dar uma dica para ti: não more em Nova York, mas também não more no fim do mundo. More no meio termo, numa cidade que tenha a calmaria ou a agitação que você procura, mas que não seja só isso, que tenha outras personalidades, que você possa fazer o que gosta. No meu caso é praia. No seu caso pode ser rio, futebol, tiro ao alvo, artesanato, não sei. Você não precisa de um mercado aberto às 3h da manhã porque precisa fazer um bolo na larica, mas também não more a 50 minutos do hospital mais próximo.&lt;/p&gt;</content:encoded><category>estilo de vida</category><category>trabalho</category><category>reflexão</category></item><item><title>Família e seus conceitos</title><link>https://niaso.vercel.app/posts/familia-e-seus-conceitos/</link><guid isPermaLink="true">https://niaso.vercel.app/posts/familia-e-seus-conceitos/</guid><description>Família nuclear, orbital, de origem e parentesco. Um modelo a partir do indivíduo para separar o vínculo que existe da relação que se vive.</description><pubDate>Tue, 27 Oct 2026 00:00:00 GMT</pubDate><category>família</category><category>família escolhida</category><category>relações</category><category>parentesco</category></item><item><title>Todos fingimos que fazemos coisas importantes</title><link>https://niaso.vercel.app/posts/fingimos-que-fazemos-coisas-importantes/</link><guid isPermaLink="true">https://niaso.vercel.app/posts/fingimos-que-fazemos-coisas-importantes/</guid><description>Todos fingimos que fazemos coisas importantes, mas será que são?</description><pubDate>Thu, 08 Oct 2026 00:00:00 GMT</pubDate><content:encoded>&lt;p&gt;Estava a acompanhar uma apresentação sobre melhorias e inovações em serviços do Estado. Várias empresas a dar palestras sobre Inteligência Artificial, preocupações com processos mais simples, interoperabilidade, experiência dos cidadãos e muito mais. Todas pessoas grisalhas, de ternos e com postura impecável, estavam a falar de coisas muito importantes.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mas será que eram tão importantes assim? À primeira vista, a melhoria de um serviço público não é só importante, é necessária. Assim como avanços da tecnologia, mas eu dei um passo atrás e me perguntei: não estamos apenas resolvendo problemas que nós mesmos criamos?&lt;/p&gt;
&lt;h2 id=&quot;problemas-modernos-exigem-soluções-modernas&quot;&gt;Problemas modernos exigem soluções modernas?&lt;/h2&gt;
&lt;p&gt;Neste evento que assisti falavam de diversas inovações para simplificar e transformar o Estado para ser mais pró-ativo, é lindo de ver. Porém o problema talvez não seja mais atrás? Por que o Estado precisa saber tantas informações a respeito das pessoas? Para que preciso de uma IA para destrinchar o meu pedido de subsídio? E o principal, por que precisa-se de subsídio?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Na minha visão, o problema está antes, é estrutural. O sistema socio-econômico no qual vivemos propícia a fome, a desigualdade, a dificuldade para muitos em prol de poucos e isso aumenta cada vez mais o abismo entre os que estão no topo e os que estão embaixo. E esses que comandam mascaram o problema ou apontam os holofotes para longe e nos apresentam soluções que remediam mas não resolvem. Pois precisam que o poder e o dinheiro continuem centralizados em sua posse.&lt;/p&gt;
&lt;h2 id=&quot;todos-nós-fingimos-que-trabalhamos&quot;&gt;Todos nós fingimos que trabalhamos&lt;/h2&gt;
&lt;p&gt;Com todos os avanços tecnológicos que estamos tendo nos últimos tempos, percebo que estamos inventando sempre novos problemas para que resolvamos. E ficamos em várias reuniões discutindo funcionalidades, melhorias e inovações para resolver estes problemas.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Dando um exemplo mais aplicado ao meu dia-a-dia: eu trabalho com tecnologia, e todas as semanas pessoas vêm até mim para discutir novas funcionalidades, que irão integrar ainda mais os sistemas de x, y ou z. Eu estou naquela reunião, fingindo que me importo e apenas escutando com 10% da minha atenção. A pessoa que está a apresentar também finge que se importa pois mandaram ela fazer, quem mandou fazer também finge que o sistema importa, seja por dinheiro ou por poder político. As pessoas que usam o sistema, só o usam por que alguém os obriga a usar, seja por uma regra ou uma lei.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Um monte de invenções que fizemos durante anos para ocupar o nosso tempo e nos sentirmos, de certa forma, importantes. Mas que não servem para nada, ou servem muito pouco.&lt;/p&gt;
&lt;h3 id=&quot;exemplo-do-excel&quot;&gt;Exemplo do excel&lt;/h3&gt;
&lt;p&gt;O contador utiliza o excel para fazer a contabilidade de uma empresa X, para que ela não tenha problemas fiscais e possa fornecer o seu software para seus clientes e lucrar com isto. O software, resolve um problema inventado. A lei, inventou que a empresa precisa pagar o imposto, pelo bem da sociedade ou do país. Mas, o país é uma coisa inventada, os limites geográficos foram tirados do cu.&lt;/p&gt;
&lt;h3 id=&quot;o-padeiro-não-finge-que-trabalha&quot;&gt;O padeiro não finge que trabalha&lt;/h3&gt;
&lt;p&gt;Ele realmente faz um trabalho que não é inventado, todos nós sentimos fome e este ser abençoado faz uma mistura de água, sal, trigo e não sei mais o quê, que satisfaz a minha necessidade básica e se tiver bem quentinho ainda me deixa feliz.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O pedreiro constrói as nossas casas, para termos teto e morar com mínimas condições, assim como o encanador e o eletricista (o pintor eu não tenho certeza). Sem as moradias como são feitas agora, morreríamos de frio ou de alguma doença.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Agora, eu? Eu faço botões que as pessoas clicam para fazer um pedido, de sei-lá-o-quê por que não em importo. Mas por algum motivo eu recebo mais dinheiro do que estas profissões supracitadas. Não faz sentido algum.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Esse texto vai continuar, pois agora não sei como terminá-lo.&lt;/p&gt;</content:encoded></item><item><title>Inteligência Artificial e o nosso futuro</title><link>https://niaso.vercel.app/posts/inteligencia-artificial-e-o-nosso-futuro/</link><guid isPermaLink="true">https://niaso.vercel.app/posts/inteligencia-artificial-e-o-nosso-futuro/</guid><description>Reflexões sobre como a IA me ajuda a criar e resolver problemas, mas me faz questionar o quanto é meu, a minha privacidade e o papel das pessoas no futuro.</description><pubDate>Sat, 26 Sep 2026 00:00:00 GMT</pubDate><content:encoded>&lt;p&gt;Tenho usado IA no meu dia-a-dia, já está completamente instalada em meu cotidiano. Uso para tarefas corriqueiras como agendar eventos, lembrar coisas que escrevi, transcrever reuniões e obter resumos, e também para projetos pessoais grandes.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Um dos meus sideprojects é uma ferramenta que há anos eu queria fazer, porém não sabia como desenvolver. A IA me possibilitou que eu tirasse uma ideia do papel e colocar em prática, não foi apenas uma ferramenta, foi o início, meio e fim. Porém, se me perguntares como a ferramenta funciona, sei responder superficialmente o princípio e a lógica, mas não conheço a estrutura de ficheiros, o que tem em cada função ou linha, nem como elas interagem entre si.&lt;/p&gt;
&lt;h2 id=&quot;os-dois-lados-da-mesma-moeda&quot;&gt;Os dois lados da mesma moeda&lt;/h2&gt;
&lt;p&gt;Não saber como está feito me traz dois questionamentos, qual o lado bom da IA? E qual o lado ruim?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Na minha concepção, o lado bom é que nos dá a possibilidade de fazermos coisas que queremos e/ou precisamos e não sabemos como fazer. Por outro lado, pode nos tornar reféns da comodidade e nos tornar mais “burros”. Eu poderia muito bem ter buscado conhecimento que existe em abundância na internet, aprendido a desenvolver e então feito todo o código a partir do zero, ou pelo menos com o auxílio de uma IA que sugere completar o que escrevo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Provavelmente teria levado muito mais tempo, teria tido menos noites dormidas e mais descanso, porém saberia como funciona de cabo a rabo todo o funcionamento do software e principalmente sentiria que foi feito por mim. Além disso, teria menos erros, que inclusive não sei que existem.&lt;/p&gt;
&lt;h3 id=&quot;uma-chave-para-novos-caminhos&quot;&gt;Uma chave para novos caminhos&lt;/h3&gt;
&lt;p&gt;Outro projeto que tenho, é escrever, como faço neste exato momento. Entretanto não conseguia parar para escrever, seja no computador quanto no papel, seja por interrupções das incessantes notificações ou outras atividades mais palatáveis que existem na internet ou até por dor nas mãos. Cheguei à conclusão que precisava de um ambiente analógico mas fácil de interagir.
A primeira coisa que veio à minha cabeça foi comprar uma máquina de escrever. Mas para isso precisaria desembolsar alguns ou vários euros, poderia parar de funcionar por ser uma peça velha, emperrar teclas, rasgar papel, e outras coisas que máquinas de escrever fazem quando estão cansadas. Não me pareceu a melhor escolha.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Então, decidi procurar aplicações de escrita que pudessem trazer este “sentimento” mais adequado que pudesse me liberar para a escrita, encontrei uma ou outra solução, mas nada do jeito que eu queria. Foi neste momento que comecei a buscar softwares de código aberto, vulgo open-source, que eu pudesse usar de base e completar com as funcionalidades que &lt;em&gt;precisava&lt;/em&gt; com o auxílio da inteligência artificial. Com alguns prompts e mais outros ajustes a IA desenvolveu. Não tenho a mínima ideia de como ela fez, ou como funciona, mas resolveu o problema, estou a escrever neste momento com o Typewriter.&lt;/p&gt;
&lt;h3 id=&quot;um-auxílio-para-a-privacidade&quot;&gt;Um auxílio para a privacidade&lt;/h3&gt;
&lt;p&gt;Sempre fui meio bitolado com redes sociais por invadirem a nossa privacidade de formas que nem imaginamos, roubos de dados, etc… Nunca gostei da abordagem de um produto ser grátis porque na verdade o produto somos nós, os nossos dados. Então comecei a buscar ferramentas que pudessem me auxiliar com a minha privacidade.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Consegui usar o Claude para transformar um antigo laptop em um servidor e nele instalamos o Pi-Hole para filtrar o que entra e sai de informações em toda a rede Wi-Fi da minha casa, fazendo com que muitas das propagandas que seriam entregues para mim e a minha família fossem filtradas, assim como os dados que tentam extrair de nós não saiam do meu controle, sem as LLMs eu jamais teria conseguido fazer.&lt;/p&gt;
&lt;h3 id=&quot;fugindo-de-assinaturas&quot;&gt;Fugindo de assinaturas&lt;/h3&gt;
&lt;p&gt;Além disso, não gosto do modelo de SaaS, assinaturas como serviço, pois fico com um pagamento recorrente, uma responsabilidade de pagar todos os meses e também fico preso a uma empresa que obtém e pode controlar o que posso ou não fazer. Então de novo, com a ajuda do Claude, busquei uma alternativa ao 1Password (que acho incrível, completo e super polido), que me retirava todos os meses 8€ da conta.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Encontrei o Bitwarden, uma opção open-source, que permite auto-hospedar um cofre dentro do meu servidor caseiro e usar a extensão, aplicação para desktop e para iOS sem custo algum. O ecossistema é muito bom, mas não tão bom quanto o 1Password, falta um esmero, uma funcionalidade ou outra que uma empresa de milhões de dólares consegue desenvolver, mas uma comunidade de desenvolvedores entusiastas leva mais tempo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O Bitwarden é de código aberto, então possibilita que as pessoas desenvolvam estas pequenas melhorias e polimentos. Peguei na “mão” do Claude e juntos fizemos uma destas funcionalidades que faltavam, o quick access. Com isto feito em um ou dois dias, transformei o Bitwarden no meu gerenciador de senhas padrão e hoje realizei o cancelamento da minha assinatura do 1Password. Óbvio que não ficou tão bem feito quanto o deles, um desenvolvimento de uma IA com &lt;em&gt;vibecoder&lt;/em&gt; amador jamais pode ser comparado com uma empresa avaliada em 6.8 bilhões de dólares, mas resolveu o meu problema e já é suficiente para mim.&lt;/p&gt;
&lt;h3 id=&quot;não-é-uma-bala-de-prata&quot;&gt;Não é uma bala de prata&lt;/h3&gt;
&lt;p&gt;Ainda não consegui me livrar de todas as assinaturas, atualmente pago o iCloud, pois substituir armazenamento em nuvem é custoso e jamais terá a integração nativa que a Apple proporciona. E também, obviamente, a assinatura de 20€ que a Anthropic recebe fielmente de mim todos os meses há quase um ano.&lt;/p&gt;
&lt;h3 id=&quot;não-sei-mais-quando-sou-eu-e-quando-é-a-ia&quot;&gt;Não sei mais quando sou eu e quando é a IA&lt;/h3&gt;
&lt;p&gt;Trabalho remotamente, e muito da comunicação é escrita, sejam e-mails ou mensagens. E já não consigo mais dizer quando sou eu que escrevo ou quando é a IA, pois uso o recurso de ditar, em que passa por um processamento que aprimora a minha fala e torna-a mais assertiva e adequada ao contexto, isso quando não passo todo o contexto e copio e colo a resposta gerada.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Também uso uma aplicação que lê quase tudo que passa pelo meu ecrã e guarda isso numa memória muito bem estruturada e me lembra de situações, tarefas, pessoas e muito mais. Já não posso dizer se uso a minha memória ou um ficheiro em SQL que uma IA consulta e me traz mastigado.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Estou misturado com a IA, estou perdendo, em grande velocidade, a minha identidade. E nessa mistura, ela já ocupa a principal parte, que raciocina, que cria, que toma decisões e vai além. Tornei-me um mero executor, nem isso, tornei-me um mensageiro, pois grande parte também é ela quem executa.&lt;/p&gt;
&lt;h2 id=&quot;uma-ferramenta-incrível-e-terrível&quot;&gt;Uma ferramenta incrível e terrível&lt;/h2&gt;
&lt;p&gt;Todos estes exemplos serviram para exemplificar que é muito bom ter esta ferramenta que possibilitou colocar diversas ideias que só existiam na minha cabeça no papel, e com uma velocidade inimaginável. Porém, não acho que posso falar que foi eu que fiz, é como se tivesse pedido a um colega para desenvolver estas ideias e confiasse cegamente nele, que ele fez como falou, que só ele entende como funciona e se eu for precisar de uma melhoria ou outra ferramenta, só poderei pedir a ele e ainda o pago um salário, mesmo que não faça nada. E pior, ele cansa muito rápido, consome recursos a torto e a direito, destrói livros no tempo livre e também desemprega pessoas ao redor do globo, ainda pode usar todas as nossas conversas para se autoaprimorar de formas que nem sei como funciona (percebo a ironia aqui quanto à privacidade) e outras coisas que nem sabemos que o meu amigo faz.&lt;/p&gt;
&lt;h2 id=&quot;o-que-o-futuro-nos-reserva&quot;&gt;O que o futuro nos reserva?&lt;/h2&gt;
&lt;p&gt;Os próximos anos serão de extrema importância para a evolução da sociedade e da tecnologia. Há alguns anos, pensávamos que a IA faria todo o trabalho manual e chato, e nos daria tempo para pensarmos, discutirmos e criarmos grandes avanços em diversos setores que as máquinas não poderiam fazer, pois não possuem “alma”, não pensam e não sentem.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O que vejo é exatamente o contrário, essa tecnologia foi treinada para nos imitar, e faz com primazia. A IA pode fazer todo e qualquer tipo de texto, e basicamente, no mundo da tecnologia, tudo é texto. Códigos de programação são chamados de Linguagem de Programação justamente por utilizarem convenções, caracteres e “palavras” assim como os idiomas que os humanos se comunicam. Então todos os computadores e softwares se comunicam por texto, sendo assim, quando a IA ficar muito boa em gerar conteúdo nestas linguagens, tudo poderá ser controlado por LLMs.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E, atualmente, a inteligência artificial já é incrivelmente boa em gerar estes conteúdos. O GPT-6 Astra, por exemplo, consegue fazer modelos 3D incríveis no Blender através de MCP e APIs. Não sei opinar na otimização da topologia ou da construção. Mas claramente fez coisas que eu não consigo fazer e provavelmente a maior parte da população não consiga sem anos de estudo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Resumindo, se um trabalho é feito exclusivamente via softwares ou máquinas e estas são controladas por códigos de programação, a IA pode fazê-los, talvez não tão bem, ainda. Mas certamente mais rápido e em maior escala que os humanos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Isso me preocupa como serão as interações no futuro, principalmente as tecnológicas. Por exemplo, órgãos públicos que precisam divulgar dados para a transparência. Precisam mostrar os dados através de sistemas robustos e confiáveis, e quem desenvolverá estes sistemas? Indo mais além, haverá sistemas? Pois, quem consultará diretamente estes dados provavelmente não serão as pessoas, serão as IAs que irão buscar, consumir, mastigar e entregarão para nós através de uma única aplicação de texto, seja da própria IA ou até mesmo de um canal de comunicação como o WhatsApp.&lt;/p&gt;
&lt;h2 id=&quot;sobrará-algo-para-os-humanos-fazerem&quot;&gt;Sobrará algo para os humanos fazerem?&lt;/h2&gt;
&lt;p&gt;Algumas pessoas, as que pensam de forma mais positiva, sugerem que sobrará mais espaço para o trabalho artesanal, feito por e para humanos, como um marceneiro que passa meses fazendo uma mesa ou uma artesã que faz um tapete com a sua máquina de tecer e nenhuma peça será igual a outra, e realmente entendo quem pensa desta forma. Mas quem terá dinheiro para adquirir estes bens? Pois o trabalho humano já é quase ou mais caro que da IA, se tornará ainda mais caro, e se a Inteligência Artificial ficar com os trabalhos de colarinho branco, que são os que pagam mais, ficaremos sem trabalho, ou trabalho que nos remunera aquém do que precisamos. Apenas as pessoas no topo da pirâmide, que se isolam cada vez mais e usam a tecnologia para acelerar ainda mais esta desigualdade, poderão ter dinheiro para além da sobrevivência.&lt;/p&gt;
&lt;h2 id=&quot;um-debate-sobre-o-futuro&quot;&gt;Um debate sobre o futuro&lt;/h2&gt;
&lt;p&gt;Gostaria de promover um debate com especialistas em IA, com leigos, com quem está a aproveitar a onda, com otimistas e pessimistas para tentar encontrar possíveis caminhos e soluções para evitar a possível mas improvável, extinção da espécie humana.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Não tendo ainda conseguido fazer esta conversa, outras pessoas já estão em alerta e buscando alternativas, uma destas é a Pro Human Declaration, que já conta com mais de 1.3 milhões de assinaturas e tenta promover pautas como:&lt;/p&gt;
&lt;ul&gt;
&lt;li&gt;manter humanos no controle&lt;/li&gt;
&lt;li&gt;menos concentração de poder&lt;/li&gt;
&lt;li&gt;proteger a experiência humana&lt;/li&gt;
&lt;li&gt;preservar a liberdade humana e&lt;/li&gt;
&lt;li&gt;responsabilidade e responsabilização das empresas de IA&lt;/li&gt;
&lt;/ul&gt;
&lt;p&gt;Se concordas com estes pontos, recomendo muito conhecer mais a fundo e assinar a declaração em &lt;a href=&quot;https://prohumandeclaration.com/en/sign/demand-ai-accountability&quot; rel=&quot;nofollow, noreferrer&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;https://prohumandeclaration.com/en/sign/demand-ai-accountability&lt;/a&gt;.&lt;/p&gt;</content:encoded><category>ia</category><category>tecnologia</category><category>privacidade</category><category>futuro</category></item><item><title>Mentir pra si mesmo</title><link>https://niaso.vercel.app/posts/mentir-pra-si-mesmo/</link><guid isPermaLink="true">https://niaso.vercel.app/posts/mentir-pra-si-mesmo/</guid><description>Sobre trabalho remoto, desgosto e a tentativa deliberada de enxergar o lado bom.</description><pubDate>Mon, 29 Jun 2026 00:00:00 GMT</pubDate><content:encoded>&lt;p&gt;Desde muito novo eu sabia o que queria fazer. Cresci gostando da minha área, estudei pra ela, entrei cedo no mercado e fui evoluindo junto com ela. É na área de tecnologia, então a maior parte do tempo isso significa estar na frente de um computador. Por muito tempo foi presencial, porém com a a pandemia isso mudou e tive a oportunidade de começar a trabalhar remotamente.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;No começo foi ótimo. Essa liberdade tem muito valor para mim, impagável mesmo. Só que com o tempo a gente começa a perceber os lados ruins, por que nem tudo são mil maravilhas. Então comecei a mentir para mim, como forma de ver menos defeitos.&lt;/p&gt;
&lt;hr&gt;
&lt;h2 id=&quot;eu-sempre-brinquei-que-se-o-trabalho-fosse-bom-não-pagavam-a-gente-pra-fazer&quot;&gt;Eu sempre brinquei que se o trabalho fosse bom, não pagavam a gente pra fazer&lt;/h2&gt;
&lt;p&gt;Mas eu nunca acreditei completamente nisso. Acho que o trabalho pode ser bom, que tem camadas aí que vale a pena abrir.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O problema é que abrir essas camadas às vezes revela coisas que a gente preferia não ver.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Assisti um vídeo da Hazel Thayer, &lt;a href=&quot;https://www.youtube.com/watch?v=-1TuR6z22Zc&amp;#x26;t=207s&quot; rel=&quot;nofollow, noreferrer&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;“Work is a cult, here’s how to escape”&lt;/a&gt;, onde ela analisa a cultura do trabalho e como a nossa identidade acaba colada ao valor que a gente produz. Isso me pegou. Quando alguém pergunta quem você é, a resposta natural costuma ser a profissão. Eu sou engenheiro, eu sou arquiteto, eu trabalho com isso ou aquilo. A pessoa se torna o cargo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mas ninguém é o trabalho. Isso parece óbvio até você perceber que não é. Conheço gente que passou 20 anos numa área e depois foi pra outra completamente diferente. O que essa pessoa “é”? Não dá pra responder só pelo que ela faz, somos muito mais do que o nosso trabalho, acho inclusive que não deveria influenciar em nada da nossa personalidade.&lt;/p&gt;
&lt;hr&gt;
&lt;h2 id=&quot;o-trabalho-remoto-e-a-falta-de-um-lugar-pra-descansar&quot;&gt;O trabalho remoto e a falta de um lugar pra descansar&lt;/h2&gt;
&lt;p&gt;O trabalho remoto não exige que você trabalhe em casa. Mas acaba sendo isso que acontece pra maioria. E aí o espaço onde você descansa vira o mesmo onde você trabalha, e eles começam a se misturar de um jeito que é difícil de desfazer.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;No começo parece ótimo. Terminei o trabalho, já estou em casa, vou jogar, ver uma série ou qualquer outra coisa. Mas vai chegando um ponto em que você quer separar, não quer ver o teu ambiente de trabalho no mesmo lugar que descansa, não quer sair do banho, olhar para uma tela e lembrar dos problemas do trabalho. Eu já penso que no futuro vou querer um espaço separado, um escritório afastado da casa, só pra poder sair de lá e saber que acabou o dia.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Porque enquanto você não sai de lugar nenhum, o trabalho não termina.&lt;/p&gt;
&lt;h3 id=&quot;a-ia-entrou-nessa-equação&quot;&gt;A IA entrou nessa equação&lt;/h3&gt;
&lt;p&gt;Pra mim, pelo menos, foi assim. Com a inteligência artificial eu percebi que muitas vezes eu nem penso mais. Peço pra IA fazer, ela faz, fica uma merda, mando refazer, fica aceitável, segue. E o meu senso crítico foi murchando nesse processo sem eu perceber.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Inclusive, estou fazendo isso agora. Esse texto nasceu de uma gravação de voz, vai virar post com ajuda de IA. Eu não gosto de escrever. Mas os pensamentos são meus, eu reviso tudo. Ou pelo menos é o que eu quero que continue sendo verdade daqui pra frente.&lt;/p&gt;
&lt;hr&gt;
&lt;h2 id=&quot;o-desgosto-que-foi-crescendo&quot;&gt;O desgosto que foi crescendo&lt;/h2&gt;
&lt;p&gt;Chegou um ponto em que eu estava extremamente desgostoso com o meu trabalho. A produtividade caiu, e não é que eu seja obcecado por produtividade, não é isso, mas eu gosto de entregar coisas. Eu escolhi esse trabalho. Tive o privilégio de poder escolher uma empresa boa, um ambiente razoável, uma remuneração ok. E mesmo assim eu estava no meu limite.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Reuniões demais, e-mails demais, chats e grupos sem fim, tudo é uma notificação e eu odeio deixar uma bolinha vermelha de notificação sem ler. Você também vai acumulando ranço de algumas pessoas, mais intimidade com outras, e o trabalho vai ficando pesado de um jeito que é coletivo. Reclamamos juntos através de uma video-chamada ou grupos de fofoca e alimentamos junto o ódio ao trabalho. Vai piorando em grupo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Aquele colega que fala muito e entrega pouco, o que não sabe o que faz mas o problema acaba no seu colo, o chefe que é grosso ou que simplesmente não faz ideia do que você faz no dia a dia. Tudo isso também acontece no presencial, mas no remoto, eu to sempre vendo o meu escritório ali, lembrando de tudo.&lt;/p&gt;
&lt;hr&gt;
&lt;h2 id=&quot;a-mentira-que-eu-decidi-começar-a-contar-pra-mim-mesmo&quot;&gt;A mentira que eu decidi começar a contar pra mim mesmo&lt;/h2&gt;
&lt;p&gt;Foi aí que eu comecei a tentar uma coisa, resolvi mentir pra mim mesmo de propósito. &lt;strong&gt;Me forçar a enxergar o lado bom do trabalho&lt;/strong&gt;, sabendo que esse pensamento não é natural, que não é o que vem primeiro na minha cabeça.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Quando estou com o estresse no limite, pego um papel e escrevo o que eu gosto no trabalho. Hoje consigo listar apenas umas quatro ou cinco coisas: o modelo remoto, a remuneração que não é ruim, a flexibilidade de horário. Não é muita coisa. Mas é alguma coisa.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A ideia não é me convencer de que tá tudo ótimo. É forçar um novo circuito de pensamento, repetir até que eventualmente ele apareça sozinho. Positivididade &lt;em&gt;quase&lt;/em&gt; tóxica, de propósito, como experimento.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Eu já senti alguma diferença pequena. Uma pessoa fez uma sugestão que antigamente eu teria descartado de cara, mas dessa vez eu consegui ver que tinha valor, mesmo vendo os problemas. Isso não parece muita coisa, mas pra mim foi.&lt;/p&gt;
&lt;hr&gt;
&lt;h2 id=&quot;eu-não-sei-se-vai-dar-certo&quot;&gt;Eu não sei se vai dar certo&lt;/h2&gt;
&lt;p&gt;Não tenho ideia se isso é sustentável no longo prazo. Por agora é o que tá me fazendo continuar com alguma motivação e Eu quero continuar tentando.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Nos próximos posts provavelmente vai aparecer alguma evolução disso, pra melhor ou pra pior. Tenho vontade de ver também se existe alguma linha filosófica ou científica sobre isso, sobre usar a autoilusão de forma intencional pra mudar o estado mental. Não sei se existe.&lt;/p&gt;</content:encoded><category>trabalho</category><category>reflexão</category><category>saúde mental</category></item><item><title>Nem diário, nem blog</title><link>https://niaso.vercel.app/posts/nem-diario-nem-blog/</link><guid isPermaLink="true">https://niaso.vercel.app/posts/nem-diario-nem-blog/</guid><description>Por que criar esse espaço, o que ele é e o que não é.</description><pubDate>Mon, 29 Jun 2026 00:00:00 GMT</pubDate><content:encoded>&lt;p&gt;Este é o primeiro post. E antes de qualquer outra coisa, preciso explicar por que criei este espaço porque a resposta a essa pergunta já é, em si, o assunto.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A vontade de extravasar existe há um tempo dentro de mim. O que faltava era entender o formato. Não num sentido técnico, mas em sentido mais fundamental: o que eu quero fazer aqui? Pra quê? Pra quem?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Fui atrás de algumas referências tentando responder isso. Assisti a um vídeo da Natalie Neri sobre diário pessoal e escrita subjetiva, em que ela fala de um processo bastante interior de guardar memórias, se compreender através da escrita, o ato de colocar uma frase no caderno como prática de autoconhecimento. Ela usa isso como parte da terapia. Faz sentido. Mas não era o que eu estava procurando.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Depois li um resumo de &lt;em&gt;O Show do Eu&lt;/em&gt;, da Paula Sibila, que trata de intimidade como espetáculo na era digital. E ali apareceu uma distinção que ajudou a organizar o que eu sentia de forma difusa: diário e blog não são a mesma coisa, mesmo que os dois envolvam uma escrita pessoal.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O diário é bruto por natureza, você pode ser contraditório, não precisa fazer sentido, não precisa chegar em lugar nenhum. Ninguém vai ler. E é essa ausência de leitor que dá liberdade pra ele. A pergunta do diário é o que você realmente pensa, sem cobrar uma resposta organizada.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O blog funciona diferente. Tem forma, tem expectativa, pode ser julgado. Mas o que mais me chamou atenção foi outra coisa: ele muda o endereço do pensamento. Você deixa de falar consigo mesmo e começa a falar pra outra pessoa, e isso altera o que você decide dizer antes mesmo de escrever a primeira frase.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Quando entendi isso, ficou claro o que eu queria. Quero que alguém leia. Quero oferecer um pensamento que encontre alguém que estava pensando algo parecido sem ter onde colocar isso.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Tem uma pergunta mais filosófica aqui que eu não consigo ignorar: por que publicar? Por que não guardar pra si? Algumas leituras dizem que o &lt;em&gt;pra quem&lt;/em&gt; importa menos do que o &lt;em&gt;por quê&lt;/em&gt;. Meu porquê é a crença de que o pensamento ganha um peso diferente quando pode ser recebido por outra consciência, e que certas ideias têm validade fora da cabeça de quem as teve.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Tenho passado por períodos em que alegrias e dificuldades aparecem misturadas de um jeito que eu não consigo organizar enquanto estão dentro da minha cabeça. Colocar pra fora, mesmo imperfeito, é uma tentativa de enxergar essas conexões de outro ângulo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Vale dizer: eu tecnicamente não escrevo isso. Prefiro falar, então gravo, transcrevo, e o texto sai com uma informalidade que decidi manter. Parece mais honesto do que polir até virar outra coisa.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Então é isso que esse espaço é: uma conversa entre eu e eu mesmo que qualquer pessoa pode entrar no meio e ler. Talvez seja ensaio, talvez seja confissão. Não sei bem. Se algo aqui encontrar alguma ideia que você já estava tendo, ótimo. Se não, tudo bem também.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Por enquanto é isso.&lt;/p&gt;
&lt;hr&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Referências&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;ul&gt;
&lt;li&gt;&lt;a href=&quot;https://www.youtube.com/watch?v=rLp4HBUDfkI&quot; rel=&quot;nofollow, noreferrer&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;DIÁRIO PESSOAL E ESCRITA SUBJETIVA — Nátaly Neri&lt;/a&gt;&lt;/li&gt;
&lt;li&gt;SIBILA, Paula. &lt;em&gt;O show do eu: a intimidade como espetáculo&lt;/em&gt;. &lt;a href=&quot;http://objdig.ufrj.br/30/teses/686522.pdf&quot; rel=&quot;nofollow, noreferrer&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;Tese UFRJ&lt;/a&gt;&lt;/li&gt;
&lt;li&gt;SILVEIRA, Fayga. &lt;em&gt;Ciberintimidade: a escrita de si na era digital&lt;/em&gt;. &lt;a href=&quot;http://repositorio.ufc.br/handle/riufc/17705&quot; rel=&quot;nofollow, noreferrer&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;UFC&lt;/a&gt;&lt;/li&gt;
&lt;/ul&gt;</content:encoded><category>meta</category><category>escrita</category><category>pensamentos</category></item><item><title>O conhecimento liberta, mas a que custo?</title><link>https://niaso.vercel.app/posts/o-preco-da-liberdade/</link><guid isPermaLink="true">https://niaso.vercel.app/posts/o-preco-da-liberdade/</guid><description>A partir de Paulo Freire e da minha relação com a tecnologia, reflito sobre como o conhecimento liberta, mas também traz desesperança.</description><pubDate>Mon, 28 Sep 2026 00:00:00 GMT</pubDate><content:encoded>&lt;p&gt;Comecei a ler o livro “Educação como Prática da Liberdade” do Paulo Freire. E quando digo que comecei, é muito recente mesmo, ainda não passei das primeiras 10 páginas, mas já me trouxe vários pensamentos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Me considero uma pessoa que está sempre em busca de conhecimento, por pura curiosidade. Às vezes tenho dúvidas ou acabei de descobrir em um assunto e me debruço sobre ele, quase um hiperfoco. Não é porque quero ser o sabichão ou porque pretendo ser liberto, é por mera e primitiva curiosidade.&lt;/p&gt;
&lt;h2 id=&quot;será-que-o-conhecimento-realmente-nos-liberta&quot;&gt;Será que o conhecimento realmente nos liberta?&lt;/h2&gt;
&lt;p&gt;À primeira vista, é óbvio que sim. Fazendo uma analogia pobre e direta, se dentre os escravos não houvesse os incomodados, provavelmente considerariam natural aquela forma de trabalho, pois é o que era passado quase como uma religião na época. Então uniram-se, batalharam e depois de milhares de anos a escravidão formal desmoronou (sei que estou sendo simplista aqui e ignorando diversos fatores, mas é apenas para ilustrar).&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Resumindo, o oprimido só sabe que está sendo alvo de opressão através do conhecimento, e assim descobre quem é o opressor.&lt;/p&gt;
&lt;h3 id=&quot;quanto-mais-conheço-mais-sinto-desesperança&quot;&gt;Quanto mais conheço, mais sinto desesperança&lt;/h3&gt;
&lt;p&gt;Estou buscando algum hobby mais analógico, pois sou uma pessoa muito ligada à tecnologia e começo a me sentir sobrecarregado de tanta coisa ao mesmo tempo. Então, acabo pesquisando muito sobre fotografia, floricultura, marcenaria, entre outros trabalhos manuais. Inclusive, parece muito uma tendência destes anos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Quanto mais eu estudo e aprendo sobre, mais sinto prostração. Pois para quaisquer destes hobbies preciso desembolsar grandes ou pequenas quantias. Mas não só isso, são atividades para me desligar, esquecer da realidade dura de trabalhar para (sobre)viver. É colocar um pano de água fria na cabeça para tratar a febre, amenizo o sintoma mas não resolvo a causa.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Na minha visão, a causa é o capitalismo, e ele se vende como um modelo socioeconômico natural, inato ao ser humano, como se sem este modelo não haveria mais nada. E é uma forma de se posicionar extremamente eficiente de perpetuar-se no poder. E justamente por isto, não consigo ver esperança nas pessoas de que existe algo diferente, não necessariamente melhor, mas me parece que ninguém mais consegue visualizar um mundo sem o capitalismo.&lt;/p&gt;
&lt;h2 id=&quot;a-tecnologia-como-ferramenta-da-perpetuação&quot;&gt;A tecnologia como ferramenta da perpetuação&lt;/h2&gt;
&lt;p&gt;Já falei um pouco disso no meu outro artigo, &lt;a href=&quot;https://niaso.vercel.app/posts/inteligencia-artificial-e-o-nosso-futuro/&quot; rel=&quot;nofollow, noreferrer&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;Inteligência Artificial e o nosso futuro&lt;/a&gt;. Mas recentemente tive uma discussão com uma colega sobre a possibilidade de valorização do artesanal. Eu quase não consigo ver isto, pois o pouco que consigo imaginar, me parece que será extremamente caro e difícil de obter, pois o trabalho feito com IAs se tornará cada vez mais barato, e &lt;em&gt;hand-crafted&lt;/em&gt; será um nicho. Porém, quando estamos falando sobre valorizar, ainda é uma valorização monetária, não conseguimos abstrair o capitalismo no futuro, mesmo que seja distópico.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A tecnologia está tão imbuída em nosso cotidiano que já nem nos imaginamos sem comprar mais e mais dela. Os smartphones são uma extensão do nosso corpo. Não consigo nem contar quantas vezes pego esse pedaço de metal com vidro, desbloqueio e rolo sem nem saber o que quero fazer, olho as caixas de e-mails vazias, fotos que tirei ontem, a hora e nem consigo lembrar 2 minutos depois o que vi ou li. Tenho um aparelho que me custou 1000€ que serve apenas para rolar sem pensar e trocar mensagens, quando isso foi normalizado que eu nem percebi?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Estamos vendendo os nossos preciosos minutos de vida em troca de vídeos bestas de pessoas que nunca ouvimos falar fazendo coisas que não nos interessa, de desinformação e principalmente, em troca dos nossos dados, para que possam vender mais e mais coisas que não queremos.&lt;/p&gt;
&lt;h2 id=&quot;a-falta-de-conhecimento-é-uma-benção&quot;&gt;A falta de conhecimento é uma benção&lt;/h2&gt;
&lt;p&gt;Meus pais, tios e avós não são pessoas preocupadas com buscar conhecimento além do necessário para realizarem o seu trabalho ou seus hobbies. Eles se divertem muito mais com as redes sociais, com vídeos feitos por IA ou de bandidos sendo mortos por roubarem um celular. Não existe a preocupação de que ao ver um vídeo sobre academia, o algoritmo da Meta perceba que é um dos seus interesses e comece a indicar mais vídeos, depois influencers que indicam produtos e por conseguinte faça-os comprar produtos que não precisam. Não, pelo contrário, eles consideram bom que algo que eles estavam a procura apareça convenientemente na palma de suas mãos no horário mais oportuno para comprar.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E eles parecem felizes, pelo menos para mim, estas preocupações não aparentam afligi-los como me aflige.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Por outro lado, vejo alguns dos meus colegas que compartilham dos mesmos interesses que eu, estão sempre mais cansados, com mais olheiras, cabisbaixos, desesperançosos e doentes. Então penso “estas são as pessoas que o conhecimento liberto, por que não parecem mais felizes?”. Não parecem pois enxergam que o problema é estrutural e não depende de indivíduos e sim do coletivo, porém quando as pessoas não conseguem nem enxergar um futuro diferente, ou que estão sendo oprimidas, elas não se juntam.&lt;/p&gt;
&lt;h2 id=&quot;liberdade-a-que-custo&quot;&gt;Liberdade a que custo?&lt;/h2&gt;
&lt;p&gt;Chego à conclusão, que, o conhecimento liberta, mas há um custo associado que muitas vezes pode não valer a pena. Óbvio que em diversas situações vale e muito, mas no meu caso, sinto que já tenho liberdade demais. Para ler, estudar, conhecer e inclusive estar escrevendo este texto que faz pouco ou nenhum sentido. Não queria estar nem pensando neste assunto.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Eu acho que seria mais feliz sem ter este conhecimento, mas agora é tarde demais, o saber tem sede de mais, e é insaciável. Não há como voltar atrás, por ora é impossível fazer uma lavagem cerebral e esquecer do que já sei. Sou refém do meu próprio conhecimento, o opressor da minha própria liberdade. Esta liberdade está começando a me custar a paz, o descanso, a relação com amigos, o tempo ocioso.&lt;/p&gt;</content:encoded><category>conhecimento</category><category>liberdade</category><category>capitalismo</category><category>tecnologia</category><category>paulo freire</category></item><item><title>O que empresas como a Sony quer tirar de nós</title><link>https://niaso.vercel.app/posts/o-que-a-sony-quer-tirar-da-gente/</link><guid isPermaLink="true">https://niaso.vercel.app/posts/o-que-a-sony-quer-tirar-da-gente/</guid><description>Um vídeo do Gaveta sobre o fim da mídia física da Sony me fez pensar em acumulação, posse e por que a pirataria volta quando um mercado se fecha.</description><pubDate>Thu, 16 Jul 2026 00:00:00 GMT</pubDate><content:encoded>&lt;p&gt;Assisti a um &lt;a href=&quot;https://www.youtube.com/watch?v=LshkYHjQzXw&quot; rel=&quot;nofollow, noreferrer&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;vídeo do Gaveta&lt;/a&gt; sobre o fim da mídia física do PlayStation, e comecei a pensar sobre o assunto. Sei que ele já publicou um segundo vídeo admitindo ter errado em algum ponto, mas decidi escrever antes de assistir, ainda com a cabeça presa no argumento original, porque acho que há coisas ali que valem a pena discutir por conta própria, sem que a “autocrítica” dele já venha embutida na minha leitura.&lt;/p&gt;
&lt;h2 id=&quot;o-anúncio-e-o-paralelo-que-ele-traça&quot;&gt;O anúncio e o paralelo que ele traça&lt;/h2&gt;
&lt;p&gt;A Sony confirmou que, a partir de janeiro de 2028, nenhum jogo novo sairá em mídia física: serão apenas por download, ou uma caixa que só tem um código, como já foi anunciado para o GTA 6. A reação da comunidade gamer foi a esperada, mais uma grande empresa monopolizando o acesso e tirando algo que sempre foi nosso, e o Gaveta, de um jeito que considero corajoso, decidiu defender a decisão. Ele traça um paralelo com música e cinema, argumentando que o streaming resolveu bem esses dois mercados. Concordo com ele em partes: uso o Amazon Luna para jogar EA FC de forma competitiva, joguei outros títulos com amigos que jamais teria comprado, e antes disso tive o Game Pass para o mesmo fim. O streaming resolve um problema real de acesso. Isso é um fato.&lt;/p&gt;
&lt;h2 id=&quot;onde-julgo-que-ele-errou&quot;&gt;Onde julgo que ele errou&lt;/h2&gt;
&lt;p&gt;O segundo argumento do vídeo é sobre acumulação: por que insistimos em ter coisas físicas, pergunta ele, se boa parte disso é só &lt;em&gt;posse pela posse&lt;/em&gt;, um comportamento entranhado no capitalismo, gente com CD que nunca tocou, jogos comprados na Steam que nunca abriu e caixas empilhadas de coisas que nunca foram ou serão utilizadas. Existe esse comportamento, tenho pessoas assim no meu círculo social e até me encaixo um pouco. Mas acho que ele confundiu o sintoma com a causa, porque o que está em jogo não é o impulso de acumular e sim o &lt;strong&gt;direito de manter aquilo que já é seu&lt;/strong&gt;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Existe uma campanha chamada &lt;a href=&quot;https://www.stopkillinggames.com/en&quot; rel=&quot;nofollow, noreferrer&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;Stop Killing Games&lt;/a&gt;, liderada por Ross Scott, que documenta algo bem mais concreto do que acumulação: jogos digitais que deixam de existir porque o servidor foi desligado ou a validação online parou de responder, transformando algo que alguém pagou para ter em arquivo &lt;strong&gt;morto&lt;/strong&gt;. Jogos antigos são mais difíceis de rodar, isso é natural, mas ainda existe gente jogando &lt;em&gt;RuneScape&lt;/em&gt; até hoje, e o ponto nunca foi nostalgia. É sobre um produto que deixou de existir porque uma empresa decidiu que já não valia mais a pena mantê-lo no ar.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Na minha visão, o contraponto mais direto a isso é a &lt;a href=&quot;https://www.gog.com/en/about_gog&quot; rel=&quot;nofollow, noreferrer&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;GOG&lt;/a&gt;: você compra o jogo, recebe o executável sem DRM, e faz o que quiser com ele, seja instalar no computador do seu irmão, ler os binários ou simplesmente guardar para sempre. É exatamente o oposto do que a Sony está construindo.
Se termino um jogo e quero vendê-lo para alguém que vai aproveitá-lo mais do que eu, recupero parte do que paguei, e esse mercado de usados desaparece junto com a mídia física. Há também algo que o próprio Gaveta reconhece, os extras que vêm no encarte e a sensação física de abrir a caixa, que por mais que pareça superficial, trás uma sensação que o digital não consegue fornecer.&lt;/p&gt;
&lt;h2 id=&quot;um-paralelo-com-o-mercado-da-música-e-cinema&quot;&gt;Um paralelo com o mercado da música e cinema&lt;/h2&gt;
&lt;p&gt;Quando o Spotify nasceu, a lógica era simples: comprar música era caro, trabalhoso e limitado, a pirataria estava muito em alta e as gravadoras estavam a perder milhões de dinheiros. O modelo de assinatura resolveu isso por um bom tempo.
Porém, os artistas passaram a receber menos pelas suas músicas, mas em compensação mais gente passou a descobrir mais artistas, uma equação que o TikTok depois escalou de outra forma.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Com o cinema aconteceu algo parecido: quando a Netflix começou, era barata e tinha um catálogo generoso. Eu tive a primeira experiência ainda em 2011, tentei assistir Spirit, porém a minha ótima internet de 2MB não me permitiu. Ainda sim me senti inovador e meus pais nem entendiam como aquilo funcionava.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;E a pirataria de fato recuou.&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Hoje o cenário se inverteu. Cada estúdio mantém seu próprio serviço de streaming, os preços subiram, e ninguém quer assinar cinco plataformas diferentes só para acompanhar as séries que gosta. Então, o &lt;em&gt;Jack Sparrow&lt;/em&gt; voltou, agora com mais tecnologia e mais facilidade, seja em sites que juntam várias plataformas em uma ou em alternativas como o &lt;a href=&quot;https://www.stremio.com/translation/br&quot; rel=&quot;nofollow, noreferrer&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;Stremio&lt;/a&gt;. O que acho incrível é que vejo muitas pessoas pagando pela pirataria. E o prejuízo da &lt;em&gt;livre distribuição&lt;/em&gt; recai muito mais sobre a distribuidora do que sobre o artista, porque quanto mais pessoas conhecem um trabalho, mesmo que por vias ilegais, maior a chance de esse artista crescer a partir disso e conseguir novos contratos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Há &lt;a href=&quot;https://www.facebook.com/angocinema/posts/curiosidade-do-dia-a-pirataria-favorecendo-a-netflixa-netflix-antigamente-monito/1364816458984215/&quot; rel=&quot;nofollow, noreferrer&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;uma curiosidade&lt;/a&gt; que sempre volta à minha cabeça quando penso nisso: a própria Netflix, nos primeiros anos, observava o que era mais baixado no &lt;a href=&quot;https://en.wikipedia.org/wiki/The_Pirate_Bay&quot; rel=&quot;nofollow, noreferrer&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;ThePirateBay&lt;/a&gt; para decidir o que entrava no catálogo, usando a pirataria como pesquisa de mercado. E é curioso ver a mesma empresa, hoje, tentando fechar a torneira da qual ela bebeu para crescer.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Não acho que a luta aqui seja sobre acumular coisas. É sobre &lt;strong&gt;manter o direito de fazer o que eu quiser com aquilo que comprei:&lt;/strong&gt; jogar na parede se um dia eu quiser, ou revender quando não fizer mais sentido pra mim, para que outra pessoa aproveite o que eu já aproveitei. &lt;strong&gt;Uma licença não é a mesma coisa que um produto&lt;/strong&gt;, e é essa diferença que empresas como a Sony estão tentando normalizar sem que a gente perceba a troca. Já têm dinheiro suficiente. Só querem mais.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Fico do lado do boicote à Sony, e do &lt;a href=&quot;https://www.stopkillinggames.com/&quot; rel=&quot;nofollow, noreferrer&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;Stop Killing Games&lt;/a&gt;.&lt;/p&gt;</content:encoded><category>games</category><category>mídia física</category><category>pirataria</category><category>cultura</category></item><item><title>O Segundo Amor</title><link>https://niaso.vercel.app/posts/o-segundo-amor/</link><guid isPermaLink="true">https://niaso.vercel.app/posts/o-segundo-amor/</guid><description>Madalena vive uma rotina pacata e silenciosa numa cidade portuguesa, até que, na véspera de Natal, o telefone toca e ninguém responde do outro lado.</description><pubDate>Fri, 17 Jul 2026 00:00:00 GMT</pubDate><content:encoded>&lt;p&gt;O sol ainda não aquecia as paredes frias das casas de pedra, e Madalena já seguia caminho para a Pombal Doce. Todos os dias vai à mesma pastelaria. O padeiro nem pergunta, já deixa preparado o seu café curto, cuja fumaça cria a sua própria atmosfera, uma tosta mista e um pastel de nata com uma pequena colher. Há quem se canse da rotina. Madalena, não: ela agarra-se como a um ursinho de pelúcia velho.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ali, sentada na mesma mesa de sempre, fica vendo as pessoas acordarem, indo apressadas para o trabalho, todas com o pensamento voando sem parar e sem rumo. Um pequeno rádio toca músicas de Amália Rodrigues. Logo cedo o fado já esquenta o seu enorme coração vazio, com saudades dos que já se foram e que faziam companhia nesses momentos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sua casa fica subindo a rua, mas ela prefere descer, em direção ao centro, para sentir o cheiro do peixe fresco que inunda o mercado municipal e sobe pelas escadas do castelo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Cueeeeca! — Madalena ouve um grito de longe. Sabe que é a sua amiga de longa data, tentando vender peças de roupa para ajudar em casa. Ignora com um leve sorriso de canto e acena. Todos os dias ouve a mesma coisa e nunca se cansa.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ao entrar no mercado, está decidida a não levar nada, apenas olhar e conversar as mesmas prosas dos dias que se passaram.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Bom dia, senhora Madalena — António arranca a cabeça rosada de um saramunete, mais comprido que o seu antebraço. — Qual leva hoje?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Bom dia. Hoje não levo nada, que só tem eu para comer em casa.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Pois leve estas sardinhas por conta da casa, que já não passam de hoje — estendendo uma sacola verde-escura com um punhado de sardinhas e um punhado de gelo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Madalena agradece, franzindo o nariz. Gosta muito de sardinhas, mas às quintas-feiras prefere comer uma bifana com ovos estrelados, e o frigorífico já está cheio de peixe. Já não se lembra da última vez que teve companhia para comer sardinhas assadas com batatas e muita risada.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Com a sua pequena sacola de peixes, começa a descer a Avenida dos Heróis do Ultramar. O trânsito parece mais barulhento do que o costume, como se os motores reclamassem de estar vivos. Duas crianças passam correndo, rindo alto, com sacolas batendo nas pernas. Uma delas canta uma música de Natal fora de tom. Madalena sorri, mas o som fica a ressoar dentro dela, estranho, como se a lembrança de outros natais estivesse tão longe que não a aquecem mais. A rua é a mesma de sempre, as pedras gastas, os carros, o vento, mas há qualquer coisa fora do lugar.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ao chegar em casa, o cheiro de humidade sobressai às sardinhas que acabam de chegar, sem alguém para lhe ajudar a manter a o lar aconchegante, Madalena não consegue controlar o mofo e a água que tomam posse durante o inverno chuvoso. Decide descansar um pouco, a subida até o seu lugar é íngreme e escorregadia, há anos decidira morar perto do Castelo e hoje os joelhos cobram.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Depois de descansar, começa a arrumar as coisinhas dela, a temperar e preparar os legumes, e fazer o almoço para si. Contando as batidas da faca em sua tábua, tentando sincronizar com as batidas do temporizador em forma de ovo amarelinho.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;É nesses momentos que ela lembra do marido. Teve o seu porto seguro por muito tempo, e nestes momentos de silêncio, sente saudades das suas brincadeiras sem graça ou quando ele resmungava sobre o gato da vizinha. Preferia muito mais estar nessa calmaria junto com ele, aproveitando todo esse silêncio ao lado dele.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Então ela termina o almoço, come sozinha admirando os pingos de chuva esparsos a cair sobre o parabrisas do carro ali abandonado. Com a barriga cheia, decide tomar uma soneca, deita-se e o rangindo da cama faz um som incomum, ritmado.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ela se apercebe de que hoje é feriado. Na verdade é véspera: dia 24. No dia 25 é Natal. Ela não tem mais família para quem ir. Não tem mais os pais, não tem mais as irmãs e muito menos o seu grande amor. Todos com quem ela tinha para conviver nesse dia já faleceu, ou não existe mais.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ao perceber, decide sentar-se. Uma inquietude toma conta da sua cabeça, e os pensamentos começam a correr depressa demais, uns por cima dos outros, sem que consiga agarrar nenhum. Tenta lembrar-se do que ainda precisa fazer, do que esqueceu, do que já não pode mudar. Depois levanta-se de repente, como quem foge de dentro da própria casa, pega no casaco e decide caminhar um pouco, só para ver se o frio da rua consegue calar aquilo tudo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Acaba por encontrar algumas das suas amigas na pracinha, mulheres que aprenderam juntas a rir das dores pequenas para não dar nome às grandes. Queixam-se dos joelhos, da humidade, do preço dos ovos e da falta que faz um sol decente em dezembro. Madalena ri e por um instante parece mesmo pertencer àquela conversa. Só por um instante. Depois leva a mão ao peito, como quem confirma se ainda traz consigo uma chave antiga, e volta a sorrir antes que alguém repare. Vera percebe, sempre foi atenta às expressões das pessoas, quase um dom.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;– Lena, já te disse que o teu lugar para a ceia ainda está guardado.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Madalena dá um sorriso tímido, repara que as luzes de natal já acenderam, e agradece de forma cordial. Odília, sempre muito desbocada, insiste.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;– Ano passado disseste que iria pensar, até me enviaste um bolo rei delicioso e não apareceu. Vamos lá, a minha – E interrompeu-se abruptamente, levando a mão a boca como quem toma uma sopa muito quente.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Madalena sorri novamente, um pouco mais tímida e lenta do que fez para a Vera.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;– Falando em bolo-rei, viram o preço este ano? Qualquer dia vendem só as frutas cristalizadas e chamam-lhe tradição. - Diz uma das amigas.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;– Talvez eu passe um bocadinho, e se não passar, faço-te um bolo-rei, com a massa além das frutas. – Madalena levanta-se, continua a ouvir a conversa de fundo e vai em direção à sua casa. Já são horas e sente que precisa fazer o seu ritual para poder dormir.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ao chegar. toma um banho e de novo se perde observando a fumaça que sai da água enquanto sente o calor subindo-lhe pelas costas até a pele parecer outra enquanto seus pés tocam a água fria que se acumula ao fundo da banheira, o contraste das temperaturas lhe conforta.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Depois do banho, sentava-se junto à janela e continuava o pequeno casaco de lã que prometera levar ao Centro de Recolha Animal. Dissera às voluntárias que era para o Neno, um cão velho, desses que já não ladram a pedir nada e com os olhos esbranquiçados como uma cortina sobre a sua alma. Ao medir a manga contra o antebraço, fazia-o com um cuidado antigo, quase materno, como se a lã ainda soubesse o tamanho de alguém.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Deita-se lentamente, com um sentimento de esperança incomum, de que algo pode acontecer. Um pensamento de que aquela noite vai ser diferente. Mas ela não consegue perceber o porquê.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Passam-se algumas horas. Madalena não consegue dormir, ficou algum tempo a ouvir a casa sossegar. O frigorífico fez o seu estalido de sempre, a madeira respondeu ao frio, e alguém passou com o carro sem pressa na rua. Tudo parecia obedecer à ordem pequena das noites comuns.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Foi por isso que o telefone, ao tocar, não pareceu um som. Pareceu uma interrupção.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Madalena abriu os olhos, mas não se mexeu logo. O toque repetiu-se sobre a mesa de cabeceira, havia algo nele que fazia não pertencer àquela noite. Estava distante, como se mesmo estendendo o braço, não conseguiria alcançá-lo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sente sua nuca ficar pesada, mas mesmo assim estica o braço para pegar o telefone, a sua mão trêmula quase não consegue levantá-lo da mesa. Atende o chamado e apenas ouve o som da própria respiração em descompasso através da linha, um tic-tac de relógio ao fundo misturando-se aos estalidos que a sua velha casinha fazia. O que Madalena pensava ser um chiado da estática aumenta e então diminui novamente, num movimento errático e inconstante.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sente o peso de sua nuca descer até a garganta e novamente tenta falar, com a esperança ter alguém a ouvir os seus pensamentos através da linha, entretanto escuta novamente a sua respiração num ritmo completamente diferente e distante.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Afasta o telefone da orelha, olha para o pedaço de plástico cor-de-coral com a língua presa no céu-da-boca, o som do relógio cessa e ouve apenas os estalidos da casa, a respiração e os ruídos cessam, o tempo para. Aproxima novamente, com a boca aberta, pronta a falar, os sons voltam e então Madalena começa a falar mesmo sem a certeza de que exista alguém ouvindo do outro lado, ela desabafa:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;– Eu era muito nova quando fui embora. Nova demais, talvez. Mas na altura não parecia cedo, parecia urgente. Havia nele uma coisa que me chamava muito alto, mais alto do que a voz do meu pai, mais alto do que a vergonha que a minha mãe fazia questão de deixar em cima da mesa, entre o pão e o silêncio.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;– Eles não o queriam. Diziam que ele… não tinha estudos, que vinha de outra gente, de outra maneira de viver. Diziam isso como quem fala de uma doença que se apanha pelo nome. Eu ouvia, calava-me, e cada palavra deles fazia crescer em mim uma porta. Um dia, passei por ela. Fugi com ele.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;– Depois disso, passamos por casas que não eram nossas, quartos emprestados, sofás onde eu dormia sem tirar os sapatos, porque nunca sabia se era para ficar ou para ir embora. Houve gente boa, também houve gente que nos recebia com uma mão e nos roubava com a outra.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;– Mais tarde vieram os sítios sem nomes, prédios vazios e até barracas. Morámos em tantos lugares que às vezes misturo as paredes. Havia uma janela partida, lembro-me disso. Ou talvez fosse noutra casa. Não sei. Mas lembro-me do frio e da fome. Éramos novos… novos demais para entender a fome como uma coisa séria. Achávamos que bastava aguentar mais um dia. Depois outro. Depois outro.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;– Ele dizia que ia melhorar. E eu… eu acreditava. Ou dizia que acreditava, e o segurava como se fosse meu cobertor.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;– Com dezessete anos, meu deus, era uma menina… uma criança… parece-me uma idade inventada, uma idade pequena demais para caber uma decisão daquele tamanho. Na altura, porém, eu disse a mim mesma que estava a ser adulta.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;– Não tínhamos nada, às vezes eu contava os pássaros na calçada para distrair da fome, noutras eu cantava para conseguir um pedaço de pão, ou era de carne? Então começámos a dizer que uma criança merecia mais. Merecia uma cama e uma sopa quente.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;– Com o tempo, só dizer desculpas para nós mesmos não era suficiente, dormir tremendo e acordar com o ronco das nossas barrigas fazia parecer impossível cuidar dela. Foi então que apareceu ela, ou foi ele? Ofereceram-me pagar.
Uma quantia de dinheiro que não sabia que existia, nem cabia na minha cabeça, vi ali que talvez pudesse dar-lhe uma vida.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O telefone começa a escorregar em seu rosto, seu peso já não é de um objeto deste mundo, o seu tamanho não cabe na mão e Madalena começa a segurá-lo com as duas mãos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;– Tinha uma casa com a janela partida. Não sei se foi antes ou depois. Já não sei. Mas havia uma janela, disso eu lembro. O vidro ficava no chão como unhas do pé que ele roía, espalhado junto à parede, e o vento entrava por ali sem pedir licença, como se a casa fosse dele e nós é que estivéssemos de favor.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;– Eu punha um pano, às vezes. Mas o frio encontrava sempre uma beira por onde passar. Ele dizia que no dia seguinte arranjava. Amanhã, dizia. Amanhã compro massa, amanhã falo com um homem, amanhã isto muda. E eu acreditava no amanhã porque não tinha mais no que acreditar.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;– Talvez não fosse essa casa. Talvez essa tenha vindo depois. Havia tantas paredes, tantas humidades, tantos tetos a pingar no mesmo. Mas a janela… a janela era aquela azul. Ou era amarela. Eu fazia de tudo pra ela não apanhar frio.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;– Aquele pedaço de esperança que crescia dentro mim já se fundia a mim, mas não queria que o vento a abraçasse também, não como me abraçava. Queria que sentisse a brisa do mar sob um sol que reflete o brilho dela, esquentando o seu coração. Por isso decidir aceitar… Eu precisava… Não, ela precisava, pois não iria sobreviver comigo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;– Durante toda a gestação os Figueiredo cuidaram de mim. Ou talvez não fosse esse o nome. Havia um nome na campainha, em letras douradas, disso eu lembro. A casa cheirava a cera no chão e a limão, nunca vi uma casa cheirar  a limão. Davam-me comida, uma cama limpa, consultas, vitaminas. Diziam que ela precisava descansar, que ela precisava nascer forte. Ela. Às vezes diziam assim, como se eu já não estivesse no meio.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;– A senhora pousava a mão na barriga antes de perguntar se podia. Não era má. Não, não era isso, mas também parecia não encostar em mim, como se eu fosse um tecido. Mandava trazerem-me chá, dobrarem uma manta sobre os meus joelhos, tinha um médico que vinha correndo quando eu ficava pálida. Eu devia agradecer e eu agradecia. Acho que agradecia. Mas havia qualquer coisa no modo como ela sorria para a minha barriga que fazia o meu coração bater depressa, depressa demais, como se quisesse sair antes da criança.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Madalena parou. O chiado da linha pareceu crescer, ou talvez fosse só o sangue no ouvido. Tentou mudar o telefone de lado, mas as mãos demoraram a obedecer.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;– No dia do parto, eu já sabia. Já sabia que não queria. Ou queria. Não. Não queria entregar. Ele estava comigo. O meu marido. Sentado junto à parede, com o chapéu nas mãos. Não falava. Só olhava para o chão, como se no chão houvesse uma resposta. Eu procurei a mão dele uma vez. Ou ele que procurou. Apertou a minha. Ou talvez tenha sido eu que apertei a dele. Já não sei.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;– O dinheiro já tinha vindo. Já tinha entrado na minha vida antes dela. Antes da minha menina. Estava tudo certo. Diziam isso. Tudo certo. Nasceu pequena. Quente. Com a boca aberta antes do choro. Eu ouvi. Ouvi primeiro o ar. Depois ouvi o choro, com gosto ardido e adocicado, o choro mais bonito que ouvi em toda a minha vida.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Madalena tentou respirar fundo. O som saiu curto, preso. O telefone escorregou um pouco na sua mão. Ela tentou segurá-lo melhor, mas os dedos estavam dormentes. Já não sentia o telefone em suas mãos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;– Deixaram-me vê-la pouco. Muito pouco. Havia uma manta branca por cima, não sei se os olhos dela puxaram os meus ou o dele, se são azuis como a janela ou castanhos. O berço ficava perto da janela. Não a janela partida. Outra. Limpa. Grande. Com cortinas que não se mexiam.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;– Eu pensei: é aqui que ela vai ficar.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;– Pensei: ao menos não vai ter frio.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;– Pensei: perdoa-me.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;– Não sei se pensei. Talvez tenha dito. Talvez só tenha mexido a boca.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;– No dia seguinte, deram-me as minhas coisas. Eram poucas. Um vestido. Um xaile. Um saco com a roupa que eu tinha trazido. A senhora falou baixo. Disse que eu precisava descansar noutro lugar. Que era melhor assim. Melhor para todos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;– Para todos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;– O meu marido levantou-se primeiro. Não disse nada. Tinha a cara de um homem que envelheceu durante a noite. Eu quis odiá-lo por não partir a casa inteira. Por não pegar ela. Por não pegar em mim. Mas ele também não tinha força. Nós nunca tivemos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;– Passei pelo corredor. Devagar. Já não cheirava a limão. Cheirava vinagre. Ou alcool. Não sei. A porta do quarto estava meio aberta. Vi o berço. Só o berço. Um pedaço da manta. Talvez o pé dela.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;– Eu parei. A senhora fechou a porta. Com cuidado. Como quem fecha uma gaveta de diamantes. Depois abriram a outra porta. A da rua. Sem o mesmo cuidado. E nós saímos. Sem ela.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;– Esse foi o meu maior erro. Não sei se erro é a palavra. Mas foi o que ficou. Ficou quando tudo o resto saiu de mim. Ele nunca a viu. O meu marido. Nunca segurou nela. Nunca soubemos o nome dela. Às vezes eu acordava e ele estava sentado na cozinha, com as mãos paradas em cima da mesa, como se ainda esperasse que alguém lhe trouxesse a menina. Morreu assim. À espera.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Madalena respirou, mas o ar pareceu não chegar inteiro. A linha devolveu-lhe um som pequeno, húmido, talvez o seu, talvez de alguém do outro lado. Ela já não soube distinguir.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;– Eu também fiquei. Fiquei aqui. Nesta casa. Neste silêncio. A pensar nela. Todos os dias. Não, todos não. Houve dias em que pensei nele. Na chuva. Na conta da luz. Mas ela estava sempre lá.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;– Eu podia ter morrido antes. Devia ter ido junto com ele. Depois dele ir, não havia muito. Havia a cama. A janela. O tricô. As vozes das outras mulheres na praça. Havia Natal, todos os anos, a bater à porta como se eu ainda tivesse família. Mas o amor da minha vida foi-se. E o segundo…&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A voz falhou. Madalena fechou os olhos. O auscultador escorregou mais um pouco, preso apenas entre a face e a mão frouxa. E então ela ouve, de relance:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;— Feliz Natal, m…&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Houve duas batidas. Depois, o som comprido da linha aberta.&lt;/p&gt;</content:encoded><category>conto</category><category>ficção</category></item><item><title>Open source é a salvação da tecnologia</title><link>https://niaso.vercel.app/posts/open-source-e-a-salvacao-da-tecnologia/</link><guid isPermaLink="true">https://niaso.vercel.app/posts/open-source-e-a-salvacao-da-tecnologia/</guid><description>A liberdade de usar, modificar e distribuir software, os exemplos do Astro e do Linux, e o que isso significa para quem desenvolve e para as empresas</description><pubDate>Thu, 15 Oct 2026 00:00:00 GMT</pubDate><content:encoded>&lt;p&gt;Para construir &lt;a href=&quot;https://niaso.vercel.app/posts/&quot; rel=&quot;nofollow, noreferrer&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;este blog&lt;/a&gt; usei um framework/tecnologia chamado astro.js, que é open-source, eu não devo nada a equipa que desenvolveu o astro e eles não exigem nada de mim. Posso editar o que eu quiser, melhorar e piorar. Esse é justamente o ponto, pessoas que usam podem sugerir melhorias que são úteis para elas e para outras pessoas, sem ficar a mercê de uma grande empresa decidir se aquilo trará benefícios financeiros. Mas não só sugerir, podemos fazer as melhorias e entregar já pronto, em um pull request, e a equipa responsável pode aceitar ou não. Se não aceitar, podemos continuar com a nossa melhoria para nós mesmos e isso é lindo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Há algum tempo, &lt;a href=&quot;https://stratechery.com/2022/an-interview-with-meta-ceo-mark-zuckerberg-and-microsoft-ceo-satya-nadella-about-partnering-in-the-metaverse/&quot; rel=&quot;nofollow, noreferrer&quot; target=&quot;_blank&quot;&gt;Mark Zuckerberg disse, numa entrevista para Stracechery&lt;/a&gt; “Em cada grande plataforma de computação, houve um ecossistema aberto focado em parcerias e um ecossistema mais fechado e integrado. No PC, o Windows era o principal ecossistema aberto e o Mac era o principal fechado e integrado. Nos celulares, o Android é o principal aberto e o iOS o principal fechado… Queremos não apenas ajudar a construir o metaverso aberto e a versão aberta do próximo conjunto de plataformas, mas também garantir que o ecossistema aberto vença nesta próxima rodada de computação.” já se passou um tempo desde então, o metaverso está falido e a próxima rodada de computação já é outra.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Me custa muito dizer, mas concordo com o Zuckerberg, se a tecnologia for aberta, podemos explorar ao máximo o seu potencial.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Existem vários tipos de licenças open-source. Algumas são mais permissivas e deixam usar, modificar e distribuir o código com poucas exigências. Outras, como as licenças copyleft, impõem regras para que as versões modificadas continuem abertas. Não é tudo a mesma coisa: cada licença permite certas liberdades e exige certas responsabilidades.&lt;/p&gt;
&lt;h2 id=&quot;linux&quot;&gt;Linux&lt;/h2&gt;
&lt;p&gt;Um kernel, open-source, que permite as diversas distribuções de sistemas operacionais. Linus Torvaldis sempre deixou muito claro que gostaria que fosse aberto para que os desenvolvedores façam o que quiserem. A maioria das pessoas não utilizam o Linux como SO diretamente, mas isso vem aumentando gradualmente, justamente por causa da sua natureza aberta, as distros vêm se tornando mais amigáveis e empresas estão pegando esse código aberto e transformando-os em produtos, como o SteamOS.&lt;/p&gt;
&lt;h3 id=&quot;steamos&quot;&gt;SteamOS&lt;/h3&gt;
&lt;p&gt;É um sistema operacional construído em cima do Linux focado em rodar jogos com eficiência e usabilidade parecida com console. Muitas vezes, inclusive, melhor do que o Windows, para qual o jogo foi originalmente desenvolvido. Graças aos desenvolvedores muito competentes e a uma empresa com visão a frente do seu tempo e também ao código aberto.&lt;/p&gt;
&lt;h2 id=&quot;se-tudo-for-código-aberto-como-ficam-as-coitadas-das-empresas&quot;&gt;Se tudo for código aberto, como ficam as coitadas das empresas?&lt;/h2&gt;
&lt;p&gt;Primeiro, a minha vontade é falar que se fodam as empresas. Segundo, ser open-source não quer dizer que precisa ser gratuito. Um sistema pode ter seu código disponível para que você faça a build, rode em seu sistema ou qualquer outra coisa e ter uma forma mais amigável com um instalador simples ou uma versão cloud, e estas versões serem pagas.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Claro que pode reduzir os lucros astronômicos das empresas trilionárias. A Apple jamais conseguiria ser do tamanho que são se seus softwares fossem abertos. Mas qual o sentido de uma empresa ser trilionária?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Acho realmente que formatos proprietários e patentes não deveriam existir.&lt;/strong&gt; Não como existem hoje. Eu não estudei nada sobre o assunto para afirmar isto, talvez deveria. Mas acho que se uma empresa desenvolve um produto, é para servir outras pessoas, e estas têm o direito de saber como aquilo funciona e alterar, editar como quiserem.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Um exemplo que penso é o caminho da indústria farmacêutica, que as patentes têm validade e quando caem, outras empresas podem produzir aquela droga de forma genérica, muito mais acessível às pessoas. Inclusive, acredito que até a receita seja aberta e nós, meros mortais, poderíamos fazê-las, mas pagamos pelo conforto de comprar algo pronto.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Acredito que o open-source pode ser a salvação da tecnologia. Poder usar, alterar e auditar o software que usamos, e até o hardware, abre espaço para melhorias que talvez nunca acontecessem se tudo dependesse da vontade de uma empresa. Código aberto não resolve todos os problemas da tecnologia. Mas permite que usuários deixem de depender exclusivamente das decisões de quem vende o produto&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Provavelmente volto a falar disso em outros posts, depois de estudar mais o assunto para não falar tanta bobagem.&lt;/p&gt;</content:encoded><category>open-source</category><category>tecnologia aberta</category><category>software livre</category><category>linux</category><category>steamos</category></item></channel></rss>